segunda-feira, 17 de junho de 2013

"TODO CORAÇÃO É UMA CÉLULA REVOLUCIONÁRIA"





Por Graciene Volcov *


R$ 0,20... É óbvio que a insurgência popular não é somente pelo valor do aumento da tarifa, só não enxerga isso quem realmente gosta de ficar com os olhos fechados em prol da manutenção do falido “status quo”, repetindo ideias prontas e pasteurizadas que são propagadas, incessantemente, pelos meios de comunicação de massa.

Porém, ainda que a insurgência fosse apenas pelos R$ 0,20, o que definitivamente não é, a revolta e as manifestações já seriam mais do que justificáveis, por vários motivos, vejamos apenas um deles:

O aumento das tarifas não refletirá na qualidade do serviço prestado e muito menos no bem estar dos trabalhadores do setor, que vão continuar praticando jornadas extenuantes e em condições absolutamente insalubres.

Alguém aí já ouviu falar da “fominha”, prática comum entre os motoristas e cobradores de ônibus? Ela coloca em risco não só o trabalhador, como as centenas de pessoas que ele transporta diariamente.

Além disso, ela tolhe, por meio da exploração de alguns, a criação de novos empregos, com jornadas regulares e decentes. A vida de um ser-humano é exaurida apenas para que alguns poucos encham os bolsos e reclamem, dentro dos seus carros caros, do trânsito e da violência de São Paulo.

Para deixar tudo um pouco mais claro, vamos falar um pouco sobre a tal “fominha”: Como os salários desses profissionais, que conduzem centenas de vidas, são extremamente baixos, eles são compelidos, para ganhar um pouco mais no final do mês, a trabalhar em jornadas abusivas, entre 12 e, pasmem, 17 horas diárias.

São as tais “horas extras” que, nesse caso, dada a sua flagrante ilegalidade, obviamente não são pagas na folha de pagamento. Elas são pagas “por fora”, em dinheiro, para não deixar qualquer rastro e, embora todos os envolvidos saibam que elas existem, preferem ignorar essa triste realidade, símbolo máximo da precarização das relações de trabalho.

Já ouvi, mais de uma vez, que os trabalhadores “querem” trabalhar dessa forma e que “pedem” para fazer horas extras - a tal “fominha”. Eu não desacredito! A ditatura do capital impõe certas condições. Mas é mais do que óbvio que eles não “querem” esse tipo de vida, eles são empurrados para ela e as empresas se aproveitam dessa situação para destroçá-los e colocar em risco toda a população que diariamente põe a vida nas mãos desses profissionais.

Creio que o fato de um trabalhador praticar uma jornada tão extenuante já seria motivo mais do que suficiente para parar um país inteiro, começando pela Av. Paulista. Mas nós sabemos que não é assim. O mal é tão insidioso que nós nos acostumamos a ele e mal percebemos que ele está por perto, muitas vezes dentro de nós. O mal é discreto, sutil e cotidiano, quase imperceptível, mas definitivamente está lá!

No entanto, para não fugir do tema central – os tais R$ 0,20 –, basta dizer que esse aumento não melhoraria a vida dos trabalhadores e da população, servindo apenas para majorar os já abusivos lucros dos empresários. Se é assim, ele já nasce injusto e justifica uma revolução.

Ainda assim, não é só isso. Não mesmo! Isso é apenas o estopim em um copo cheio de mágoas, e essa desatenção, definitivamente, foi a gota d’agua (salve Chico Buarque!).

RESISTE SP!

Se foram os R$ 0,20 que começaram tudo isso e nos fizeram enxergar a falaciosa democracia em que vivemos, na qual sequer podemos nos fazer ouvidos sob pena de nos tratarem como bandidos e arruaceiros, só nos resta agradecê-los. Nunca antes R$ 0,20 fizeram tanta diferença. Eles nos acordaram! Resiste SP! A cidade é nossa, não deles!

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Sobre o tema, vale relembrar e transcrever uma emblemática discussão extraída de uma das cenas do filme “Edukators”, do qual também foi extraído o título desse texto:

Jan: Não! É a regra básica do sistema: chupar todos até o bagaço para que não possam mais reagir.

Hardenberg: Não é assim! Claro que precisamos melhorar as coisas, mas o sistema não vai mudar.

Jan: Por que não?

Hardenberg: Porque é da natureza humana querer ser mais que os demais... todo grupo logo elege um líder e a maioria só fica feliz quando compra algo novo.

Jan: Feliz? Acha que eles são felizes, Hardenberg? Abra os olhos. Saia do seu carro e ande nas ruas. Eles parecem felizes ou animais assustados? Veja suas salas de estar, todos estão grudados na TV, ouvindo zumbis chiques falando de uma felicidade perdida. Dirija pela cidade. Verá a imundice, a superpopulação. As massas em lojas de departamentos subindo e descendo escadas-rolantes feito robôs. Ninguém conhece ninguém. Acham que a felicidade está a seu alcance, mas ela é inalcançável. Porque você a roubou e sabe muito bem disso.... Mas tenho uma notícia para você, executivo: o sistema superaqueceu: somos só os precursores, a sua era está para acabar. Enquanto você surfa na tecnologia os outros sentem ódio. Como as crianças das favelas vendo filmes de ação americanos. Isso é só o começo, nós vamos ver. Haverá mais casos de insanidade, serial killers, almas destruídas, violência gratuita. Não pode sedar todos eles com games shows e shoppings. Os antidepressivos não vão funcionar para sempre... O povo está cansado da merda do seu sistema maldito e hipócrita.

Hardenberg: Está bem! Admito que há alguma verdade no que disse, mas sou o bode expiatório errado. Eu jogo o jogo. Mas não fui eu que fiz as regras desse jogo.

Peter: Não importa quem inventou a arma, só quem puxa o gatilho.




* Graciene Volcov é advogada trabalhista, fã de Sartre e tem sangue russo nas veias, e foi com esse traço genético pulsando que escreveu o texto logo acima.


[foto: Adriano Lima]

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Um comentário:

  1. FODASTICO GRÁ!!! "Os antidepressivos não vão funcionar para sempre" ;)

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