domingo, 31 de maio de 2009

VOU CONTAR UMA HISTÓRIA


Por Marcelo Viegas

E eu vou contar uma história aqui.

É o seguinte: não gostava de Cocteau Twins nos anos oitenta, até por desconhecimento, até por preconceito! Skatistas gostavam de músicas de skatista, música de vídeo de skate ou que rolava em campeonato de skate. Skatista não queria ser confundido com dark´s, góticos ou qualquer outra tribo urbana (não querem ainda). Era segmentada a parada, muito mais do que hoje. Mas envelhecemos e ficamos um bocadinho mais sábios. Alguma coisa boa tinha que vir com a idade...

Pois bem, o tempo passou, chegaram os noventa e o Cocteau lançou um disco chamado Heaven or Las Vegas, inaugurando a década mesmo, exatamente em 1990. Eu, preconceituoso e burro, deixei passar em branco, nem dei bola. Três anos se passaram, veio 1993, e veio também o vídeo da Birdhouse, com Hawk, Willy Santos, Ocean Howell e Jeremy Klein. Principalmente Jeremy Klein, um dos skatistas que mais admiro, pelo estilo, pela personalidade, pela criatividade. E adivinhem o que tocava na parte dele? Sim, Cocteau Twins. A bela, poética, emocionante "iceblink luck", faixa 3 de Heaven or Las Vegas. Fudeu, né? Fiquei bobo, fiquei pasmo e fiquei apaixonado na hora. Eu assistia todo dia aquele parte do Jeremy Klein, 3 vezes por dia, no velho e surrado vídeocassete lá de casa. No começo assistia por causa do Jeremy Klein, mas depois de um tempo percebi que algo havia mudado: eu assistia só pra escutar "iceblink luck".

Não entendia como podia ser tão bonita aquela música, e como ela combinava com um vídeo de skate, trazendo sentimento e uma vibe especial para aquelas imagens. Ver Jeremy andando, escutar Cocteau, isso fazia com que eu me sentisse um pouco mais perto dos meus ídolos, inocentemente eu achava que havia alguma conexão maluca que unia esse jovem aqui, na solidão do seu quarto e do seu mundo, aos seus streeteiros favoritos lá na Califórnia. Olhando hoje, talvez eu tivesse um pouco de razão, porque compartilhávamos de fato coisas em comum: skate, roupas, música, atitude, visão de mundo...

O que importa é que Heaven or Las Vegas entrou na minha vida feito um furacão, dilacerando meu coração ainda adolescente, mudando minha perspectiva sobre música e mostrando que existe beleza nas coisas tristes, muita beleza aliás. Tenho Heaven or Las Vegas em CD e vinil, além da K7 que me acompanha desde 93, e posso afirmar sem dúvidas que esse é um dos meus discos favoritos, fácil no top ten da minha vida. Mesmo hoje, muitos anos depois do seu lançamento oficial, muitos anos depois do Birdhouse, sinto vontade de chorar ao ouvir cada uma das 10 lindas canções desse álbum monumental. Mas seriam lágrimas de alegria e nostalgia, pois é a trilha-sonora dos melhores anos de minha vida, por mais clichê que isso possa parecer.

Pronto, contei.

Assista a parte de Jeremy Klein, com Cocteau Twins:



[texto originalmente publicado no flog /o_livro, em 14/01/07]


quinta-feira, 28 de maio de 2009

CELTON - UM HERÓI BRASILEIRO


O trânsito de São Paulo já gerou oportunidade para muita gente: vendedores de amendoins, limpadores de vidro e até os famosos faquinhas. Mas, por mais incrível que pareça, ele ainda pode oferecer surpresas. Vestido em um impecável terno amarelo, com uma placa com letras garrafais, Lacarmélio Alfêo de Araújo anuncia: "Leia Celton — Estou vendendo revistas em quadrinhos que eu mesmo fiz. R$ 2,00 - 32 páginas. Neste número: O Caçador de Emprego"

O marketing funciona, uma buzina basta e Lacarmélio corre por entre os carros vendendo o gibi de seu personagem Celton.

Celton não usa capa nem cueca por cima da calça. É um herói brasileiro que vive suas aventuras nas ruas de Belo Horizonte. Dotado de uma força física acima do comum, capaz de correr mais rápido que um automóvel e até mesmo de levantá-lo (poderes que praticamente não usa porque é discreto como todo bom mineiro), aliada a fortes princípios morais e éticos, ajuda as pessoas a melhorarem suas vidas entre um conserto de moto e outro em sua oficina.

A história de Lacarmélio também tem muito de heróico e parece com a de muitos brasileiros. Nascido numa pequena cidade mineira, já foi engraxate, vendeu picolé, trabalhou como auxiliar de escritório, escriturário, desenhista de publicidade (em Belo Horizonte) e tentou a vida em Nova York cantando Beatles no metrô. Criou o personagem “Homem Felino” – identidade secreta de Celton - e a partir de 1975 fez várias viagens a editoras em São Paulo e no Rio de Janeiro para tentar vender seus projetos (uma dessas, de bicicleta a São Paulo, durou quatro dias).

Cansado de receber “nãos” resolveu apelar para o “do-it-yourself”: fez um empréstimo bancário e lançou Celton (feito em off set) por conta própria. Nas bancas foi um fracasso de venda. Passou a vender a revista pessoalmente nas ruas de Belo Horizonte e então conseguiu êxito. Já deu entrevista no Jô Soares, participou da Bienal do Livro e fez trabalhos para empresas como a Skol e Petrobrás.

Agora Celton (ou Lacarmélio) chegou a São Paulo onde pretende continuar sua grande aventura: viver de sua arte.


Confira a entrevista que Lacarmélio cedeu exclusivamente para o ZINISMO:

ZINISMO: Para você, quais são os fatores que levam Celton a fazer sucesso?
LACARMÉLIO: Difícil de responder. Só posso dizer que a minha dedicação à revista, tanto na produção (roteiro, desenhos, pesquisas, produção gráfica, etc) quanto na venda é total. Estou sempre ligado em assuntos populares, que possam atrair a atenção dos leitores. Ao ter a idéia de um roteiro, eu só parto para sua produção (ter uma idéia é muito diferente de produzir uma revista) se eu sentir que ela é simples e talvez possa agradar. Sei que não estou escrevendo para mim, mas para os leitores. Em resumo: dedicação, trabalho e um "feeling" que não sei explicar.

Você vive de seus gibis? Qual é a tiragem? E a periodicidade?
LACARMÉLIO: Financeiramente, sim. Tiragem inicial 10 mil exemplares. Não há periodicidade, alguns números são mais difíceis do que outros. Só quando começo a produção é que percebo o grau de dificuldade de cada um. Já houve revistas que fiz em um mês, e a mais demorada levou um ano.

E por que São Paulo? Qual tem sido a reação do público?
LACARMÉLIO: Estou aqui por dois motivos principais: 1) os engarrafamentos são maiores do que os de BH e 2) agora eu tenho um filho de 6 anos, não posso mais fazer revista só por idealismo (o que na verdade ainda é), mas também porque fazer revista é a minha profissão e eu tenho que cuidar da segurança do meu filho. Se você não tiver filho, não entenderá esta resposta.

Quais suas inspirações para a criação do personagem?
LACARMÉLIO: Os assuntos populares e o que os leitores comentam dos números já publicados.


E o homem felino, que fim levou?
LACARMÉLIO: Homem Felino foi um personagem dos tempos de adolescente, com seus enormes valores daquela época. Minha cabeça hoje está absolutamente em outros tipos de roteiros.

E os leitores paulistanos, onde podem procurar Celton?
LACARMÉLIO: De momento, comigo nos engarrafamentos, exatamente como em Belo Horizonte. São Paulo é uma cidade ainda misteriosa para mim: excitante, convidativa ao trabalho, às oportunidades...

Imagino que já deve ter passado por poucas e boas no seu ofício de vendedor de gibis, poderia contar algumas dessas aventuras?
LACARMÉLIO: É difícil lembrar, assim de supetão. Mas positivamente falando, todas fazem parte da história da revista, todas enriquecedoras. Mesmo as experiências chatas contribuíram para o enriquecimento da história da revista.

Um recado para seus leitores:
LACARMÉLIO: Não desistam nunca. A revista Celton só vem conseguindo algum resultado significativo por causa da insistência. Eu só venho aprendendo a escrever roteiros simples que agradam aos leitores, depois de muitos anos escrevendo para o povo. Eu só consigo viver hoje financeiramente da revista porque com os anos eu aprendi a vendê-la. As dores no corpo, principalmente nas pernas, ao final de um dia no meio do trânsito, só eu que sei como são terríveis, assim como os calos nas mãos segurando por horas aquela placa. A saudade do meu filho de 6 anos lá em BH às vezes me leva à loucura. Ainda bem que a mãe dele é a melhor mãe do mundo e está segurando a onda na minha ausência, pois ela sabe o quanto é importante as vendas em São Paulo. Tudo nesta vida tem seu preço. Se você não pagar o preço da vitória, não queira esperar por ela.



Segue o contato do mestre, para aqueles que não tiveram a sorte de encontrá-lo no trânsito: revistacelton@ig.com.br

terça-feira, 26 de maio de 2009

JAY BENNETT R.I.P.


Pois é, a maré está sinistra: desde a estreia do Zinismo, essa já é a terceira nota de falecimento. Sai pra lá, zica!

Jay Bennett, ex-membro do Wilco, morreu na madrugada deste domingo (24) aos 45 anos.

Preste sua homenagem, baixando, ouvindo e guardando com carinho o último disco solo lançado pelo músico, "whatever happened i apologize", de 2008. Download legal e gratuito, vale a pena lembrar.

...

segunda-feira, 25 de maio de 2009

HIP HOP UNDERGROUND: DE JAÇANÃ À LUANDA EM DOIS CLIQUES

Olá Zínicos e rapêize que vem aqui com toda bondade no coração ver o que tá pegando!

Passei o final de semana ouvindo bandas de "Poder Violência" e Hip Hop Underground enquanto estava a caminho de encontrar meus amigos. E o destaque do post fica para o h2 clandestino.

Segue duas paradas que ouvi tanto que se I-podre tivesse agulha, com certeza estaria quebrada. Divido com vocês:




Segunda track do disco de estréia dos caras de nome " É o Gigante." RELATOS DA INVASÂO é do Jaçanã (morooo em Jaçanãaaaaa e se eu perder esse trem...) e não é de hoje já fixou seu nome no cenário hip hop underground com muito respeito e apoio da velha escola. Mais infos em:
http://www.myspace.com/relatosdainvasao






" Kid Sebastião Manuel também conhecido no movimento hip hop como KID MC, nasceu na província de Huíla em Angola em 1986.

Devido a guerra que assolou o país na década de 90, muda-se para Luanda em 1992. Foi na cidade capital que surgiu o seu interesse pelas artes e música. Tendo mesmo estudado artes plásticas numa instituição local.

O interesse pelo Rap surgiu em 1998 por influência de um dos seus irmãos que colecionava músicas de MCs americanos. Com ele aprendeu a verdadeira essência do Rap e da Cultura Hip Hop." Quer sacar?

http://www.myspace.com/kidmcderaiz

A internet é um veículo muito poderoso realmente, pensem comigo, sem essa revolução alucinada quando poderiamos ouvir hip hop de Angola ou mesmo do Jaçanã caso não fôssemos fans de extrema de hip hop?


LUZ!!!!

sexta-feira, 22 de maio de 2009

PUNK ROCK SUPERSTARS



Banda, blog, podcast. Serão essas as armas do Punk Rock Superstars para reativar e incentivar a memória da cena punk/hardcore dos anos noventa. Trata-se de um projeto da galera de BH, que começou com a ideia de um retorno do Dread Full, mas que acabou tomando outros rumos.

Funciona assim: a banda fará shows tocando exclusivamente covers de bandas nacionais e gringas dos anos noventa. Por que? Alexandre do Dread Full é que responde: "Para mostrar aos mais novos que existiu muita coisa boa antes das porcarias de NXZERO e outras merdas de chapinha no cabelo."

Eis a escalação do time:
Marx - baterista do Ourselves e automatic.hi.speed
Bruno - guitarrista do Ourselves e automatic.hi.speed
Cota - guitarrista do Dread Full e do Valv
João Veloso - baixista do White Frogs
Alexandre - baixista do Dread Full e automatic.hi.speed
Leo Baiano - vocalista do Dread Full

Mas, e esse "superstars" no nome, não é meio pretencioso? Alexandre novamente: "Os superstars não somos nós, mas sim as bandas que pretendemos homenagear tocando nos shows". Ah, agora sim!

Além dos shows, será colocado um blog/site no ar, no qual será possível baixar podcasts com programas em vídeo falando das bandas daquele tempo. "Nos primeiros iremos falar do show do Down by law, depois do Garage Fuzz e depois de bandas importantes que estiveram no Brasil", conta Alexandre.

O primeiro show já está marcado: 29 de maio, sexta-feira, as 22h, A OBRA (BH).


Siga no twitter.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

O DIA EM QUE DORIVAL ENCAROU A GUARDA

Dialogando com vídeo postado aqui no dia 18 pelo companheiro Viegas lembrei-me de outro vídeo de Jorge Furtado chamado “O dia em que Dorival encarou a guarda”.

Na primeira vez em que assisti a esse vídeo era ainda adolescente. Chamou-me a atenção de pronto as frases de efeito e o modo como os palavrões eram pronunciados ( particularidade do cinema nacional que foi amplamente usado pelo Hermes e Renato). Outro aspecto que me chamou atenção é a brilhante atuação de João Acaiabe que até então fazia parte de minha memória afetiva como participante do programa infantil da década de oitenta Bambalalão.

Mas nos dias de hoje, revisitar este filme tem um significado ainda maior: Kakfa, Foucault e Camus estão representados no absurdo da situação, além de toda nossa vergonhosa tradição colonial-milico e racista.




E não se esqueça: Pau mandado não tem lema!

Quem quiser assistir ao filme em melhor qualidade pode acessar o excelente site Porta Curtas, que além de “O dia em que Dorival encarou a guarda”, disponibiliza vários curtas-metragens gratuitamente.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

ENTREVISTA REDSON - COLERA


O nosso companheiro fanzinista Márcio Sno fez uma brilhante entrevista com o Redson, vocal da banda punk Cólera (que faz 30 anos) para o site Rock Press.

Entre outros assuntos, a conversa passa pelas pioneiras tournês européias, o início do punk no Brasil, o lançamento do material de trinta anos da banda, as primeiras produções punks brasileiras... enfim, um verdadeiro manual do-it-yourself para qualquer pessoa envolvida com o underground.

Confira!