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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
3 PERGUNTAS PARA O CEREZO
Quem pensa que o nome é uma homenagem ao volante do Atlético Mineiro e da Seleção Brasileira de 1982 se engana. O Cerezo homenageado é outro: o mitológico músico/roqueiro da noite de São Bernardo do Campo (SP), falecido em 2009 (até onde eu sei). Mas voltemos ao Cerezo-banda: Rafael Crespo (guitarra/voz), Tinico (baixo/voz) e Babalu (bateria). Sonoridade retrô, anos 80, letras em português, uma demo com 5 músicas e esse bate papo exclusivo com o Zinismo. Conheça o Cerezo!
Zinismo: Vocês são amigos de longa data. Mas como surgiu a ideia de fazer essa banda juntos? E por que agora?
Tinico: Bom, antes de conhecer e me tornar amigo do Rafa, eu era fã dele. Quando era mais novo, lembro que um dia (em 1994 ou 95) tive uma folga no McDonald's, e me tranquei no quarto pra cheirar gás de geladeira (freon 12) e escutar Planet Hemp. Eu ficava viajando nas guitarras, achava aquele monte de delay a coisa mais foda do mundo, literalmente entrava dentro do som (risos). Não imaginava na época que um dia conheceria o cara que tocava essa guitarra... Muitos anos depois acabei conhecendo o Rafael através do Polara e do Carlinhos (Dias), porque eu morava em Porto Alegre e pirava nas bandas de hardcore, comprava tudo por correio, trocava carta, comprava zine... Um belo dia eu cresci e acabei vindo morar em SP. Fã de Polara que sou e de som emo/hardcore, acabamos nos aproximando.
Quanto a ideia da banda, foi 100% do Rafael, e acredito que foi uma mistura de saco cheio com a fase folk que ele tinha passado e uma tentativa de voltar a ser jovem. Tipo ele se olhou no espelho e pensou: "sou punk, meu negócio é hardcore e é isso que eu quero fazer". A banda é um desabafo, uma tentativa do Rafa, e consequentemente nossa, de expressar um monte de coisa que estava entalada na garganta. O Rafael é músico, sofreu toda essa mudança do mercado musical, é roqueiro mesmo, sobreviveu às diferentes décadas, e eu acho que o Cerezo é o espelho disso: é o Rafael fazendo uma coisa que realmente acredita.
Eu sou outro cara. Tive umas bandas no sul quando era mais novo, venho do skate, cresci escutando hardcore e suas variantes, mas não sou um músico. Toco mais na vontade mesmo, sou tatuador, meu dia-a-dia é bastante corrido, preciso me esforçar para conseguir ter a banda. Acredito que o Rafael me chamou porque existe uma afinidade muito grande entre a gente, desde o lance do som que a gente gosta, do nosso humor, das piadas, até o lance da gente ser espírita. Eu não sou um baixista foda, mas a gente curte Jawbreaker, saca? (risos)
O Babalu veio depois. O (Marcelo) Fusco tocou com a gente um tempo, mas ele tem outras bandas, trabalha todo dia com horário fixo, e depois de alguns meses percebeu que não estava afim de tocar "hardcore" e achou melhor sair. E foi bom, porque o Babalu é um cara que escuta Lagwagon! (risos) Esses dias a gente estava ensaiando e eu falei que o melhor som pra correr na esteira era Pennywise, que eu corria 7km sem sentir, porque o som me ajudava. Aí falei que eu tava tipo um adolescente, que tinha baixado os discos do Lagwagon e estava escutando o Hoss. O Babalu me olhou, e falou, "eu também tô escutando esse disco", e a gente caiu na risada! Os ensaios estão sendo cada vez mais divertidos.
O Cerezo tá massa por causa disso, a gente tá em sintonia e ninguém tem vergonha ou medo de falar o que pensa. Eu e o Babalu estamos na onda do Rafa, a gente gosta das músicas, a gente ensaia com vontade, curtindo mesmo, e mesmo a banda tendo pouco tempo, a gente tá começando a se soltar. Acho que o Cerezo é isso, três caras fazendo um som e curtindo.
Zinismo: O nome Cerezo é uma homenagem ao mitológico cantor do ABC?
Rafael: Esse nome surgiu numa viagem. Estava indo com o Againe para algum lugar fazer um show, e no busão o Carlos lançou essa história, que ele estava andando na rua e um cara o confundiu com outra pessoa, e perguntou se ele não era amigo do Cerezo, black metal de São Bernardo. Ele não entendeu nada e perguntou, "Quem? Banda de black metal Cerezo?” Aí a gente ficou rindo, imaginando uma banda com esse nome, e de black metal! Mas eu nem tava ligado que o Cerezo existia de verdade, fiquei sabendo dele quando você me contou.
Zinismo: Achei o som bem oitentão, com muita referência de skate rock, e também de umas paradas tipo Ira! dos 3 primeiros discos, e até Embrace... É por aí?
Tinico: Sinceramente eu não conheço Ira!, vou até baixar os discos... mas a pegada do Rafa é ir contra a corrente. Um dia a gente estava ensaiando e eu falei: "normalmente uma base como essa teria uma distorção pra ficar mais definida", e o Rafa respondeu: "é justamente por isso que eu não uso", e a gente caiu na risada... mas deu a calhar que bem quando a gente começou a tocar, eu tava escutando sem parar umas 3 músicas do Men At Work... eu escuto tudo que é tipo de música, escuto muito Dub, e nessas de reggae eu gosto até de umas coisas mais pop, tipo Eddy Grant e Black Uhuru... os anos 80 têm muito Chorus nas guitarras, né? Flanger... mistura isso com bandas do tipo Toxic Reasons e o próprio TSOL... sem a gente conversar a respeito calhou que o Rafa tava com essa vontade, de fazer um som com esses timbres 80's mesmo. E isso me traz uma nostalgia ótima, me leva para um tempo que eu era um guri de um bairro pobre de Porto Alegre, e era diferente dos outros: tinha 10 anos e andava com os caras de 25, andava de skate e escutava Adolescents, Dead Kennedys, Agent Orange, pirava no visual "Team Alva" quando saiu aquela foto nas revistas de skate. Eu sonhava em ter alguém para amar, tipo skate punk romântico. Não tinha o Jawbreaker ainda e eu já era aquilo que fala nas letras... eu tinha 15 anos e nunca imaginaria que um dia ia me preocupar com o aluguel, com o plano de saúde... Cerezo saca? É acordar cedo, tomar um café e ir pra guerra. É São Paulo.
A gente não é daqui, mas essa cidade nos escolheu, a gente chegou aqui e ficou. O Rafa é do Rio, eu sou de Porto Alegre, o Babalu é de Aracaju, mas a banda soa de São Paulo. Não acham?
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segunda-feira, 27 de junho de 2011
ENTREVISTA SHED 2002
Navegando pela net e consultando o Oráculo, encontrei uma entrevista que fiz com o Shed em 2002. Juro: não lembrava dessa entrevista. Ela foi feita na minha antiga loja na Galeria do Rock e foi publicada no site Zona Punk. E agora, quase 10 anos depois, resolvi publicá-la aqui também, na sua versão integral. Segue o bate-papo, com a intro original da época...

Num dia qualquer de Abril de 2002, me reuni com metade do Shed para um divertido bate-papo ao som de Closure e Smalls. Para os não-iniciados, o Shed é uma ótima banda paulistana de "róqui", ou neo-grunge como alguns preferem. O que importa realmente é a aposta numa sonoridade pouco usual e, talvez por isso mesmo, tão agradável aos ouvidos cansados da mesmice musical da cena alternativa tupiniquim. A banda é formada por Zé (guitarra e vocal), Fernando (guitarra e backing vocal), Gabriel (baixo) e a lenda Hugo (bateria e baladas na Riviera São Lourenço). Eles lançaram há pouco tempo o seu segundo álbum "Now Available In Stereo" (primeiro pelo selo Highlight) e têm mostrado nas suas performances ao vivo toda a força e qualidade da sua música. O essencial já foi dito, para maiores detalhes e ocasionais gargalhadas leia a entrevista logo abaixo... Senhoras e senhores, é com imenso prazer que lhes apresento o sensacional Shed!!
Viegas: Como, quando e por quê o Shed iniciou suas atividades?
Zé: Começamos em 98, a fim de tocar só, foi isso...
Hugo: Eu tinha outra banda antes, aí o Zé entrou pra cantar, aí a banda começou a fazer as paradas em português, nós saímos fora e montamos o Shed.
Viegas: Por quê? Só porquê era em português?
Hugo: É, a gente não gostava de português na época... tava muito igual Legião Urbana e como eu odeio Legião Urbana preferi sair fora.
Viegas: Já que entramos na polêmica do idioma, eu gostaria de saber qual o principal motivo que levou o Shed a optar pelo inglês: foi pelo fato do Zé ser americano, por causa da sonoridade em si ou para atingir um público para além das fronteiras do Brasa?
Zé e Hugo juntos: Pelas 3 coisas!
Zé: A gente acha que o rock devia ser em inglês.
Hugo: Não, não é que a gente acha isso, é que é foda fazer em português, tem que ser muito bom para ser bom, é difícil...
Viegas: Qual banda faz bem em português?
Hugo: Prot(o).
Viegas: Só o Prot(o)?
Hugo: Não, deixa eu ver outra banda... (pensando)
Viegas: E a Legião Urbana?
Hugo: Não, Legião é uma bosta! Aperta o pause aí...
Viegas: Não!
Hugo (perguntando p/ o Zé): Qual banda eu gosto em português mesmo?
Zé: Prot(o) e Ludovic. (risos).
Viegas: Expliquem o que é Ludovic...
Zé: Ludovic é rockão meu!! (risos)
Viegas: Quem toca no Ludovic?
Hugo: Eu, o Jair que era do Okotô, o Pepê que ninguém conhece e um outro guitarrista que eu não sei o nome porque ele nunca ensaiou comigo, só fiz um show com ele e não sei o nome dele, esqueci... (mais risos)
Viegas: Ainda na polêmica do idioma... Zé, como anda o inglês dos vocalistas tupiniquins?
Zé: A maioria das bandas são ruins de sotaque, eu acho péssimo, mas isso é normal porque é muito difícil ter o sotaque certo para cantar...
Viegas: E quem faz bem em inglês, com um sotaque bacana, uma gramática correta?
Hugo (enfático novamente e se metendo na conversa): Diesel.
Viegas: Só o Prot(o), só o Diesel, você é radical, hein?
Hugo: Não, tem mais bandas...
Zé: Tem o Hateen, o Pin Ups também era bom...
Viegas: Existe um certo paradigma, apontado até mesmo por vocês, que diz respeito ao fato do Shed ter "problemas" com público. Explico: A molecada hardcore parece não entender a proposta neo-grunge do Shed, e isso meio que incomoda vocês, não é? Qual a saída: mudar a mentalidade dos guris ou tentar atingir um outro público?
Zé: Acho que mudar a mentalidade mesmo...
Viegas: Não é a saída mais difícil?
Zé: Só tocando e tocando e tocando pra entrar na cabeça das pessoas...
Hugo: Porque a gente não é uma banda grunge na verdade, a gente é uma banda de rock! E nem todos os moleques são preconceituosos, sempre tem uns 3 ou 4 que acabam gostando... e de 3 em 3 um dia a gente chega nos 10, 11... (risos) E como a gente toca muito com banda de hardcore, porque colocam a gente pra tocar, quem deveria conhecer nosso som acaba não conhecendo... mas foda-se também se é hardcore ou heavy, a gente quer tocar!
Viegas: Há quem diga que com o fim do Pin Ups, o Shed ficou orfão, pois o Pin Ups era tipo "padrinho" do Shed, sempre deu uma puta força pra vocês, colocando vocês pra abrir os shows deles, inclusive o do Superchunk na Broadway...
Hugo: Quando a gente tocava com o Pin Ups era foda porque o público do Pin Ups era a galera que gostava do nosso som, ou que pelo menos poderia gostar... aí o Pin Ups acabou e nós começamos a tocar com o Crush Hi-Fi, que também acabou, aí começamos a tocar com o Echoplex que aparentemente também acabou... aí não tem mais banda pra tocar, quer dizer, tem banda pra tocar mas não como a gente, não com o mesmo som... mas tem o lado bom, pois show com banda tudo igual é uma merda, eu não aguento, principalmente se for tudo banda de hardcore.
Viegas: Vocês enfrentam um problema semelhante com o Pin Ups circa 93, na fase do "Scrabby!": eles eram pesados demais para o público guitar/indie e, em contrapartida, pop demais para a galera que ouvia música mais "pesada" (punk/hc). O Shed também vive nesse vácuo de público?
Hugo: Nossa maior influência é punk rock, apesar do som não parecer punk, ou seja, só porque nossa influência é punk rock não quer dizer que vamos fazer um som igual punk rock... a gente faz um som nosso!
Viegas: Mas essa atitude meio passiva do público, meio fria, incomoda vocês?
Hugo: Só em São Paulo temos esse problema, eu não sei o que acontece... quando a gente toca em outros estados junto com bandas de hardcore, muitas vezes em festivais de hardcore, o pessoal dança normal, curte o som, bate palmas (risos)... 30 ou 40 pessoas vem falar com a gente ao invés dos 3 ou 4 de São Paulo, então não sei, todas as bandas falam que estão perdendo o tesão de tocar aqui em São Paulo.
Viegas: E por falar em shows com bandas de hardcore, vocês poderiam aproveitar pra fazer um panorama geral de como transcorreu a tour com o Flatcat...
Zé: A turnê com o Flatcat teve seus pontos bons e seus pontos péssimos... o pessoal do Flatcat é bem legal, do Reffer também, a gente se divertiu bastante na viagem, foi legal mas não tem muito o que dizer...
Viegas: E o problema com o velho TAD (ônibus da banda, de 1958!), o que rolou?
Hugo: O busão quebrou e não tínhamos como pagar, aí o Gabriel pagou do bolso dele, depois quebrou novamente, também não tinha como pagar, aí tivemos que voltar com um busão normal, depois o Gabriel voltou pra arrumar. Aí nós tomamos um prejuízo, por isso que vai rolar um show beneficente (Nota do Editor: na verdade já rolou, foi no Hangar e tocaram, além do Shed é claro, Polara, Reffer, Fuleragem e Marshmallow Pies), espero que todo mundo compareça pra ajudar o velho TAD pois um dia você pode andar nele (risos).
Viegas: Vamos falar um pouco sobre o disco novo, "Now Available in Stereo"... O resultado foi aquilo que vocês imaginavam?
Hugo: Não agradou porque nós não conseguimos fazer o que a gente sempre quis, até porque ainda não achamos a pessoa certa pra gravar a gente...
Viegas: Mas será que essa pessoa existe no Brasil?
Hugo: Não.
Viegas: E o que vocês vão fazer?
Hugo: O próximo disco a gente vai gravar fora do país.
Viegas: E o disco está vendendo legal?
Hugo: Cara, um exemplo: na turnê com o Flatcat, enquanto as outras bandas vendiam 10 cds por show a gente vendia 1. Então na turnê inteira nós vendemos uns 10 cds, teve só um show que a gente vendeu 2 cds, na maioria a gente vendia 1 porque sempre tinha algum amigo nosso de longa data e ele comprava... hahaha... E aqui em SP a última notícia que eu tive é que tinha vendido uns 350 cds...
Zé: Mas a gente precisa tocar mais, porque só tocando é que vai vender cd, não tem jeito.
Viegas: Qual o episódio de viagem mais hilário já vivenciado pelo Shed?
Hugo: Foi aqui em SP mesmo, a gente foi tocar com uma banda no Sub Jazz, aí o ultra-master-mega-plus batera do grupo levou a bateria dele de 7 bumbos ultra-mega-plus dourada (risos), aí o cara fez o ultra-mega-show dele com explosão e tudo, aí simplesmente no final ele retirou a bateria dele e ainda quase bateu no Gabriel...
Viegas: E vocês ainda tocaram?
Hugo: Tocamos com um tom, um surdo, uma caixa e um prato.
Viegas: E vocês já se falaram depois disso, ele pediu desculpas ou algo do gênero?
Hugo: A gente nunca mais toca com eles enquanto ele estiver nessa banda, porque isso não é atitude digna de um cara que toca rock no Brasil, sendo que a banda dele é tão tosca e bosta quanto a nossa em termos de público, não estou falando de som é claro. Sei lá meu, o cara faz academia e tal, é descolado...
Viegas: Falem sobre o clip de "It’s Today".
Hugo: Estava rolando a gravação de um comercial de um celular do Sul, mas aqui em SP, e estavam participando uns atores da Globo, famosos tipo ultra-mega-master-plus-hiper, tipo o batera do grupo que falamos anteriormente, e de "resvalo" eles viram a gente gravando e decidiram nos ajudar. E ficou fudido...
Viegas: E tipo caiu do céu, foi de graça mesmo?
Hugo: É, só pagamos o material que usamos e o George que é uma lenda do videoclip...
Viegas: Vocês foram abençoados pra ter uma sorte assim?
Hugo: Cara, a gente só entra em roubada, uma vez a gente tem que dar sorte em alguma coisa, porque a gente só se fode! Ou os caras roubam a gente no show, ou o busão quebra, a gente vai tocar e as minas não vem atrás da gente... hahahaha... É brincadeira.
Viegas: O que vocês têm escutado ultimamente?
Zé: Sense Field, a melhor banda do mundo!
Hugo: Ultimamente eu tenho escutado bastante Kiss, bastante mesmo, e agora eu voltei a ouvir bastante Hüsker Dü que eu tinha parado um pouco, Mudhoney e Fu Manchu.
Viegas: E existe algum referencial coletivo pro Shed, algo que unifique as preferências de cada um de vocês, sei lá, por exemplo o próprio Hüsker Dü?
Hugo: Não. Seria uma banda new wave tipo Stray Cats (???). (risos)
Viegas: Pra finalizar eu queria que o Zé me respondesse uma coisa: É verdade que o Hugo é débil mental?
Zé: É.
...
Num dia qualquer de Abril de 2002, me reuni com metade do Shed para um divertido bate-papo ao som de Closure e Smalls. Para os não-iniciados, o Shed é uma ótima banda paulistana de "róqui", ou neo-grunge como alguns preferem. O que importa realmente é a aposta numa sonoridade pouco usual e, talvez por isso mesmo, tão agradável aos ouvidos cansados da mesmice musical da cena alternativa tupiniquim. A banda é formada por Zé (guitarra e vocal), Fernando (guitarra e backing vocal), Gabriel (baixo) e a lenda Hugo (bateria e baladas na Riviera São Lourenço). Eles lançaram há pouco tempo o seu segundo álbum "Now Available In Stereo" (primeiro pelo selo Highlight) e têm mostrado nas suas performances ao vivo toda a força e qualidade da sua música. O essencial já foi dito, para maiores detalhes e ocasionais gargalhadas leia a entrevista logo abaixo... Senhoras e senhores, é com imenso prazer que lhes apresento o sensacional Shed!!
Viegas: Como, quando e por quê o Shed iniciou suas atividades?
Zé: Começamos em 98, a fim de tocar só, foi isso...
Hugo: Eu tinha outra banda antes, aí o Zé entrou pra cantar, aí a banda começou a fazer as paradas em português, nós saímos fora e montamos o Shed.
Viegas: Por quê? Só porquê era em português?
Hugo: É, a gente não gostava de português na época... tava muito igual Legião Urbana e como eu odeio Legião Urbana preferi sair fora.
Viegas: Já que entramos na polêmica do idioma, eu gostaria de saber qual o principal motivo que levou o Shed a optar pelo inglês: foi pelo fato do Zé ser americano, por causa da sonoridade em si ou para atingir um público para além das fronteiras do Brasa?
Zé e Hugo juntos: Pelas 3 coisas!
Zé: A gente acha que o rock devia ser em inglês.
Hugo: Não, não é que a gente acha isso, é que é foda fazer em português, tem que ser muito bom para ser bom, é difícil...
Viegas: Qual banda faz bem em português?
Hugo: Prot(o).
Viegas: Só o Prot(o)?
Hugo: Não, deixa eu ver outra banda... (pensando)
Viegas: E a Legião Urbana?
Hugo: Não, Legião é uma bosta! Aperta o pause aí...
Viegas: Não!
Hugo (perguntando p/ o Zé): Qual banda eu gosto em português mesmo?
Zé: Prot(o) e Ludovic. (risos).
Viegas: Expliquem o que é Ludovic...
Zé: Ludovic é rockão meu!! (risos)
Viegas: Quem toca no Ludovic?
Hugo: Eu, o Jair que era do Okotô, o Pepê que ninguém conhece e um outro guitarrista que eu não sei o nome porque ele nunca ensaiou comigo, só fiz um show com ele e não sei o nome dele, esqueci... (mais risos)
Viegas: Ainda na polêmica do idioma... Zé, como anda o inglês dos vocalistas tupiniquins?
Zé: A maioria das bandas são ruins de sotaque, eu acho péssimo, mas isso é normal porque é muito difícil ter o sotaque certo para cantar...
Viegas: E quem faz bem em inglês, com um sotaque bacana, uma gramática correta?
Hugo (enfático novamente e se metendo na conversa): Diesel.
Viegas: Só o Prot(o), só o Diesel, você é radical, hein?
Hugo: Não, tem mais bandas...
Zé: Tem o Hateen, o Pin Ups também era bom...
Viegas: Existe um certo paradigma, apontado até mesmo por vocês, que diz respeito ao fato do Shed ter "problemas" com público. Explico: A molecada hardcore parece não entender a proposta neo-grunge do Shed, e isso meio que incomoda vocês, não é? Qual a saída: mudar a mentalidade dos guris ou tentar atingir um outro público?
Zé: Acho que mudar a mentalidade mesmo...
Viegas: Não é a saída mais difícil?
Zé: Só tocando e tocando e tocando pra entrar na cabeça das pessoas...
Hugo: Porque a gente não é uma banda grunge na verdade, a gente é uma banda de rock! E nem todos os moleques são preconceituosos, sempre tem uns 3 ou 4 que acabam gostando... e de 3 em 3 um dia a gente chega nos 10, 11... (risos) E como a gente toca muito com banda de hardcore, porque colocam a gente pra tocar, quem deveria conhecer nosso som acaba não conhecendo... mas foda-se também se é hardcore ou heavy, a gente quer tocar!
Viegas: Há quem diga que com o fim do Pin Ups, o Shed ficou orfão, pois o Pin Ups era tipo "padrinho" do Shed, sempre deu uma puta força pra vocês, colocando vocês pra abrir os shows deles, inclusive o do Superchunk na Broadway...
Hugo: Quando a gente tocava com o Pin Ups era foda porque o público do Pin Ups era a galera que gostava do nosso som, ou que pelo menos poderia gostar... aí o Pin Ups acabou e nós começamos a tocar com o Crush Hi-Fi, que também acabou, aí começamos a tocar com o Echoplex que aparentemente também acabou... aí não tem mais banda pra tocar, quer dizer, tem banda pra tocar mas não como a gente, não com o mesmo som... mas tem o lado bom, pois show com banda tudo igual é uma merda, eu não aguento, principalmente se for tudo banda de hardcore.
Viegas: Vocês enfrentam um problema semelhante com o Pin Ups circa 93, na fase do "Scrabby!": eles eram pesados demais para o público guitar/indie e, em contrapartida, pop demais para a galera que ouvia música mais "pesada" (punk/hc). O Shed também vive nesse vácuo de público?
Hugo: Nossa maior influência é punk rock, apesar do som não parecer punk, ou seja, só porque nossa influência é punk rock não quer dizer que vamos fazer um som igual punk rock... a gente faz um som nosso!
Viegas: Mas essa atitude meio passiva do público, meio fria, incomoda vocês?
Hugo: Só em São Paulo temos esse problema, eu não sei o que acontece... quando a gente toca em outros estados junto com bandas de hardcore, muitas vezes em festivais de hardcore, o pessoal dança normal, curte o som, bate palmas (risos)... 30 ou 40 pessoas vem falar com a gente ao invés dos 3 ou 4 de São Paulo, então não sei, todas as bandas falam que estão perdendo o tesão de tocar aqui em São Paulo.
Viegas: E por falar em shows com bandas de hardcore, vocês poderiam aproveitar pra fazer um panorama geral de como transcorreu a tour com o Flatcat...
Zé: A turnê com o Flatcat teve seus pontos bons e seus pontos péssimos... o pessoal do Flatcat é bem legal, do Reffer também, a gente se divertiu bastante na viagem, foi legal mas não tem muito o que dizer...
Viegas: E o problema com o velho TAD (ônibus da banda, de 1958!), o que rolou?
Hugo: O busão quebrou e não tínhamos como pagar, aí o Gabriel pagou do bolso dele, depois quebrou novamente, também não tinha como pagar, aí tivemos que voltar com um busão normal, depois o Gabriel voltou pra arrumar. Aí nós tomamos um prejuízo, por isso que vai rolar um show beneficente (Nota do Editor: na verdade já rolou, foi no Hangar e tocaram, além do Shed é claro, Polara, Reffer, Fuleragem e Marshmallow Pies), espero que todo mundo compareça pra ajudar o velho TAD pois um dia você pode andar nele (risos).
Viegas: Vamos falar um pouco sobre o disco novo, "Now Available in Stereo"... O resultado foi aquilo que vocês imaginavam?
Hugo: Não agradou porque nós não conseguimos fazer o que a gente sempre quis, até porque ainda não achamos a pessoa certa pra gravar a gente...
Viegas: Mas será que essa pessoa existe no Brasil?
Hugo: Não.
Viegas: E o que vocês vão fazer?
Hugo: O próximo disco a gente vai gravar fora do país.
Viegas: E o disco está vendendo legal?
Hugo: Cara, um exemplo: na turnê com o Flatcat, enquanto as outras bandas vendiam 10 cds por show a gente vendia 1. Então na turnê inteira nós vendemos uns 10 cds, teve só um show que a gente vendeu 2 cds, na maioria a gente vendia 1 porque sempre tinha algum amigo nosso de longa data e ele comprava... hahaha... E aqui em SP a última notícia que eu tive é que tinha vendido uns 350 cds...
Zé: Mas a gente precisa tocar mais, porque só tocando é que vai vender cd, não tem jeito.
Viegas: Qual o episódio de viagem mais hilário já vivenciado pelo Shed?
Hugo: Foi aqui em SP mesmo, a gente foi tocar com uma banda no Sub Jazz, aí o ultra-master-mega-plus batera do grupo levou a bateria dele de 7 bumbos ultra-mega-plus dourada (risos), aí o cara fez o ultra-mega-show dele com explosão e tudo, aí simplesmente no final ele retirou a bateria dele e ainda quase bateu no Gabriel...
Viegas: E vocês ainda tocaram?
Hugo: Tocamos com um tom, um surdo, uma caixa e um prato.
Viegas: E vocês já se falaram depois disso, ele pediu desculpas ou algo do gênero?
Hugo: A gente nunca mais toca com eles enquanto ele estiver nessa banda, porque isso não é atitude digna de um cara que toca rock no Brasil, sendo que a banda dele é tão tosca e bosta quanto a nossa em termos de público, não estou falando de som é claro. Sei lá meu, o cara faz academia e tal, é descolado...
Viegas: Falem sobre o clip de "It’s Today".
Hugo: Estava rolando a gravação de um comercial de um celular do Sul, mas aqui em SP, e estavam participando uns atores da Globo, famosos tipo ultra-mega-master-plus-hiper, tipo o batera do grupo que falamos anteriormente, e de "resvalo" eles viram a gente gravando e decidiram nos ajudar. E ficou fudido...
Viegas: E tipo caiu do céu, foi de graça mesmo?
Hugo: É, só pagamos o material que usamos e o George que é uma lenda do videoclip...
Viegas: Vocês foram abençoados pra ter uma sorte assim?
Hugo: Cara, a gente só entra em roubada, uma vez a gente tem que dar sorte em alguma coisa, porque a gente só se fode! Ou os caras roubam a gente no show, ou o busão quebra, a gente vai tocar e as minas não vem atrás da gente... hahahaha... É brincadeira.
Viegas: O que vocês têm escutado ultimamente?
Zé: Sense Field, a melhor banda do mundo!
Hugo: Ultimamente eu tenho escutado bastante Kiss, bastante mesmo, e agora eu voltei a ouvir bastante Hüsker Dü que eu tinha parado um pouco, Mudhoney e Fu Manchu.
Viegas: E existe algum referencial coletivo pro Shed, algo que unifique as preferências de cada um de vocês, sei lá, por exemplo o próprio Hüsker Dü?
Hugo: Não. Seria uma banda new wave tipo Stray Cats (???). (risos)
Viegas: Pra finalizar eu queria que o Zé me respondesse uma coisa: É verdade que o Hugo é débil mental?
Zé: É.
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segunda-feira, 2 de agosto de 2010
FANZINOTECA MUTAÇÃO - ENTREVISTA COM LAW TISSOT

O professor de artes visuais e ilustrador Law Tissot conseguiu colocar em prática o sonho de muitos fanzineiros. Em um espaço físico localizado em uma antiga estação de trem (em Rio Grande – RS) funciona a FANZINOTECA MUTAÇÃO.
Neste espaço pode-se consultar um belo acervo de fanzines, xerocá-los por um preço módico e ainda participar de oficinas de graffiti , lambe-lambe e arte postal.
Conheça mais sobre este espaço na entrevista abaixo:
ZINISMO: A primeira pergunta é clássica: como se deu seu envolvimento com a cultura underground e com os fanzines?
LAW TISSOT: É difícil pecisar um "ponto zero", mas com certeza sem o Movimento Punk nada teria acontecido. Viver o espírito das ruas naquela época foi muito rico em todos os sentidos. Tem coisas que só as ruas fazem por nós. E no aspecto da arte, então, em plena abertura política dos anos 1980... Foi um privilégio ter sido adolescente naquele momento da nossa história, e ter encontrado todos aqueles caras.
Como foi o processo de criação e estabelecimento da FANZINOTECA MUTAÇÃO?
Eu sempre tive um grande entusiasmo pelos fanzines desde quando os conheci, provavelmente em 1983, 1984... Essa paixão aumentou quando comecei a fazer os meus próprios zines e entrar naquela rede de trocas e contatos pelos correios. Daí nasceu um desejo de ter um local para manter um acervo público de zines. Mas isso demorou muito, porque levei uma vida de aventuras urbanas entre os anos 1980 até 1999. Em 2001 entrei para o Curso de Artes Visuais da Universidade Federal do Rio Grande e aos poucos fui me envolvendo com outros aspectos da cultura brasileira. Com isso cheguei aos companheiros do Ponto de Cultura ArtEstação e através de um edital da Funarte (Interações Estéticas 2009) pude legitimar esse sonho, com espaço físico adequado, catalogação, copiadora e todo o resto... A maior dificuldade está em conseguir zines das décadas de 1980 e 1990, temos recebido muitas doações, é verdade, mas bem sabemos que a quantidade de zines e zineiros neste país foi enorme. Muita gente desapareceu na história e muitos zines - lamentavelmente - nunca mais serão lembrados.
Acredito que a Fanzinoteca mutação possibilite o primeiro contato de muitos leitores com os fanzines. Como você observa tal interação?
Existe uma nova geração que tem uma grande distância de tudo isso, do que vivemos e do que significa editar, reproduzir, distribuir um zine, com todos os elementos - do xerox aos correios - então, às vezes, por mais que eu me esforce e me entusiasme com as explicações, o pessoal prefere mesmo é ficar apenas conectados nas suas redes sociais e nos blogs (no caso do blog é muito curioso, pois os vejo como filhos digitais dos zines, em um certo sentido é claro). Mas é importante dizer que aqueles que fizeram - ou ainda fazem - parte do mundo dos zines são os que mais se emocionam (mesmo!) com nosso espaço, acervo e ações.
Você associa o maior acesso à internet e tecnologia como responsável pelo declínio da produção dos fanzines nos anos 00?
Não tenho uma resposta certa a respeito disso. Não creio que foi apenas a internet, na medida em que temos como exemplo o Zinismo, onde existe uma excelente relação entre o uso da internet e a produção / fomento dos zines. São muitos fatores que podem ter esfriado toda a cena underground. Por um lado as transformações são inerentes a cultura humana. Mas existem muitos companheiros fazendo algo para manter os zines vivos, é isso o que importa na verdade.
Como professor de artes visuais, gstaria que falasse um pouco sobre a linguagem e estética própria dos fanzines.
A liberdade criativa dos zines são a sua maior identidade, assim podemos experimentar todos os formatos, linguagens e poéticas que nossos talentos alcançarem.
Qual sua percepção sobre a cena zineira atual no Brasil e no mundo? Qual o lugar dos fanzines nos dias de hoje?
Existem nomes importantes hoje, que mantem os zines num nível de propagação bastante atraente, como é o caso do Fábio Zimbres, através da Mostra Transfer . Tem a cena de Fortaleza, com o Weaver, Lupin, Paulo Amoreira, JJ Marreiro... visitei essa turma em março e fiquei assombrado com tanta energia circulando. O Brasil é mesmo muito vasto, através da fanzinoteca tenho me surpreendido bastante. Mantenho contato com a cena de Portugal desde os anos 90 e através deles chego a outros países da Europa. Lá, me parece, os zines atingiram um outro aspecto. Mais sofisticado até. Acho que os fanzines brasileiros, quando inseridos - e se relacionando - com todas as manifestações da arte urbana contemporanea poderão encontrar uma identidade bem interessante.
Gostaríamos que fizesse uma pequena lista de bons fanzines e blogs para os leitores do zinismo, podem ser vivos ou mortos...hehe
É uma pergunta curiosa, pois eu tenho uma relação passional com qualquer espécie de zine. Não conseguiria eleger os melhores. Prefiro que os leitores do Zinismo acessem o blog da nossa fanzinoteca e descubram os zines do nosso acervo e todos os links que dispomos. Será uma experiência muito interessante, acredito!
Espaço livre para manifestação:
Gostaria que me escrevessem (tissot_law@yahoo.com.br) que prometo responder sempre. Quem puder visitar o sul do RS, venha até a cidade do Rio Grande e conheçam a nossa fanzinoteca. Quem puder doar um zine, melhor. Nossa idéia é ampliar cada vez mais nosso acervo de zines e preservar para as gerações futuras o maior número possível de exemplares, com seus conteúdos incríveis e idéias mirabolantes de seus autores.
ZINISMO RECOMENDA: visite o blog, mande e-mail e envie o seu fanzine! A causa agradece!
Ilustrações por Law Tissot.
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