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sábado, 24 de março de 2012

LAW TISSOT - COBERTURA DO II UGRA FEST + SAO PAULO


Law Tissot certamente faz parte do grupo de pessoas que têm 48 horas dentro de um dia.

Artista, educador, zineiro, videomaker, fundador e "mantenedor" da Fanzinoteca Mutação, em Rio Grande (RS), Law esteve em São Paulo nos dias 09 e 10 de março para o II UGRA ZINE FEST.

Além de participar como palestrante, Law fez uma cobertura em video sobre o evento e também sobre sua rápida passagem pela cidade de São Paulo neste final de semana. Quem conhece o trabalho de Law sabe que seus personagens cyber-punks poderiam muito bem ter perfeitamente em São Paulo, o cenário utópico apocalíptico para suas existências.

O video extrapola os limites do festival e conta subjetivamente a história de um final de semana do artista, que transplantado de sua pacata cidade natal, teve apenas dois dias para aplacar sua fome de caos, cultura e informação. Junta se a isso a materialização da amizade com vários amigos que até o momento eram conhecidos através cartas, emails ou seus zines. Sem dúvida pouco tempo e muitas expectativas. E pode acreditar que nenhum segundo foi desperdiçado. E este video é um modo de compartilhar um pouco do que o artista viu e viveu nestas 48 horas (que no seu caso poderiam ser 96?).



domingo, 4 de março de 2012

PALESTRAS E DEBATES - II UGRA FEST



Um dos pontos especiais do II UGRA FEST ZINE são as palestras.

O critério para seleção dos temas e dos palestrantes do evento deste ano foi principalmente trazer discussões relevantes e que abordassem questões presentes no contexto atual de produção de fanzines no Brasil.

A primeira Palestra do dia é com Nenê Altro.

Muita gente quando ouve seu nome associa imediatamente às bandas das quais é vocalista, principalmente o Dance of Days.

Mas além da produção musical, Nenê se movimenta por outras produções independentes, como é o caso dos fanzines. Nenê é fanzineiro desde 1987 e é neste meio que propaga com alguns convidados selecionados, idéias políticas, pensamentos sobre a cena independente do punk e do hardcore e mil outras coisas.

Publicou durante muito tempo o jornal Antímidia e agora está na ativa com o PEST. Seus zines têm tiragem não inferior a 5000 cópias e são gratuitos, demonstrando uma habilidade notável de Nenê em tocar suas publicações, inclusive em um aspecto delicado e que aflige a maioria dos produtores de zines: seus custos.



A segunda palestra é com o Law Tissot.

Fanzineiro desde 1984, com o fanzine Mutação. Editor – desde então – de tantos zines que a memória não alcança mais. Colaborou em mais outros zines mundo afora, com textos, colagens, desenhos e quadrinhos. Tocou em bandas punk, gótica (dark?) e cyberpunk. Publicou no Cybercomix nos anos 90 a série “Tribos Urbanas do Século XXI” que posteriormente deu origem a série “Cidade Cyber” publicada na revista independente Areia Hostil, co-editada ao lado do Lorde Lobo entre 2001 e 2006. O Areia Hostil ganhou um HQ Mix em 2006, também. Formado em Artes Visuais licenciatura e na pós-graduação em Poéticas Visuais. Trabalha como diretor, produtor e editor de vídeos na Rede de Pontos de Cultura da Universidade Federal do Rio Grande e no Ponto de Cultura ArtEstação.

Lançou diversos documentários, curtametragens e clipes. Mantém a Fanzinoteca Mutação no Ponto de Cultura ArtEstação. Quase sempre fica isolado na sua aldeia, localizada na cidade do Rio Grande, extremo sul do Rio Grande do Sul. Mesmo assim, às vezes, arrisca algumas aventuras em outros territórios, em outros mapas, como é o caso de sua incursão pelas terras paulistanas no UGRA FEST.



A última palestra é com ilustre desenhista Marcatti.

Francisco Marcatti é o maior nome dos quadrinhos underground do Brasil.
Fundou a Editora Pro-C em 1980, quando comprou uma ordinária impressora offset de mesa e deu um verdadeiro olé no esquema tradicional das editoras, publicando suas próprias revistas e títulos de outros artistas. Nesta época publicou o primeiro livro do autor Lourenço Mutarelli.

Tornou-se nacionalmente conhecido ao desenhar a capa do disco “Brasil”, da banda Ratos de Porão, em 1989 e ao publicar na lendária Chiclete com Banana.
Ao longo de mais de 3 décadas de produção, abocanhou o prêmio Jayme Cortez de incentivo aos Quadrinhos e nada menos que 4 prêmios HQ Mix consecutivos na categoria Publicação Independente.

Já teve lançamentos pelas editoras Opera Graphica, Escala, Conrad e Devir.
Atualmente, entre diversos projetos pessoais autopublicados é também colaborador da revista MAD.



Após as palestras, teremos o Debate “Quadrinhos Independentes: Opção ou Condição?”, que contará com a participação do Marcatti, do Law Tissot e também do Thiago Spyked. A mediação fica por conta do quadrinista Will.
O tema debate surgiu mediante a realidade de que há um grande número de zines e publicações independentes voltadas para o segmento de histórias em quadrinhos.

Thiago Spyked é o mais novo dos participantes do debate. Nasceu e vive em São Paulo, começou a publicar seus quadrinhos em 2004 e continua até hoje. Formado em Design gráfico no Mackenzie, trabalha como designer gráfico e ilustrador em mercado editorial e publicitário, dá aulas de desenho e quadrinhos pelo projeto Zines nas zonas de Sampa desde 2010.

Fundou e coordena a editora Crás na qual trabalha publicando apenas obras em quadrinhos nacionais e já teve atuações em diversos eventos do segmento anime/mangá, Fest Comix, Virada Cultural, Semana Temática de Quadrinhos no CCJ, Mercado Mundo Mix, Centro Cultural Vergueiro, FIQ . Atualmente a editora além de publicar suas obras, ainda possui todo know-how de produção dos produtos derivados das publicações, e também presta serviços no segmento publicitário e institucional sempre procurando fazer diferença nos quadrinhos nacionais.

Thiago também publica alguns vídeos na internet onde faz discussões bem humoradas sobre questões interessantes do universo dos ilustradores e quadrinistas.



Will é ilustrador e quadrinista, um dos responsáveis pela criação do fanzine Subterrâneo (2004). Em 2007 ganhou dois Troféus HQMIX, e recebeu menção honrosa de Melhor Desenhista no 1º Troféu Alfaiataria de Fanzines. Em 2008 criou o personagem, Demetrius Dante. Em 2011 publicou Ciranda Coraci e O Senhor das Histórias, ambos em parceria com o roteirista Wellington Srbek e, de forma indepedente, O Louco, a Caixa e o Homem, com o roteirista Daniel Esteves. Participou da coletânea MSP+50 (2010), tem trabalhos publicados na revista Front e nas publicações independentes: JAM, Tempestade Cerebral, Garagem Hermética entre outras. Lançou duas revistas do Sideralman (2007 e 2009). Participa do Quarto Mundo e do Petisco.

Programação Completa:

DIA 9 DE MARÇO, SEXTA-FEIRA, ÀS 21h
Local: Sattva Bordô – Praça Roosevelt, Nº 82 – Centro – São Paulo / SP
Quanto: R$10

Festa de lançamento do 2º Anuário de Fanzines, Zines e Publicações Alternativas.
Shows com Ajax Free, Noala e Hutt.


DIA 10 DE MARÇO, SÁBADO, ÀS 14h
Local: Casa do Fazer – Rua Humberto I, 201
Quanto: Colaboração espontânea (colabore com o que puder, se puder). Oficinas: R$20

14h: Oficina de Estêncil com Daniel Melim
Valor da oficina: R$20. Vagas limitadas.
Inscrições antecipadas pelo e-mail ugra.press@gmail.com

15h30: Oficina de Customização de Fanzines com Rodrigo Okuyama
Valor da oficina: R$20. Vagas limitadas.
Inscrições antecipadas pelo e-mail ugra.press@gil.com

17h: Palestra com Nenê Altro
Gratuito. Vagas limitadas. Retire senha no local 20 minutos antes do início da palestra.

17h: Início da mostra Doc.Zines (
Consulte programação aqui)
Gratuito. Vagas limitadas.

17h50: Palestra com Law Tissot
Gratuito. Vagas limitadas. Retire senha no local 20 minutos antes do início da palestra.

18h40: Palestra com Marcatti
Gratuito. Vagas limitadas. Retire senha no local 20 minutos antes do início da palestra.

19h30: Debate “Quadrinhos Independentes: Opção ou Condição?”, com Marcatti, Law Tissot e Thiago Spyked. Mediação: Will.
Gratuito e aberto a todos os presentes.

21h: Estréia dos documentários “Fanzineiros do Século Passado – Capítulo 2″, de Márcio Sno, e “Ugra, the Karma”, de Paulo Oliveira.
Gratuito e aberto a todos os presentes.

Durante todo o dia: Exposição de zines, feira de publicações alternativas, comes e bebes. Gratuito e aberto a todos os presentes.

sábado, 2 de abril de 2011

1º ANUÁRIO DE FANZINES, ZINES E PUBLICAÇÕES ALTERNATIVAS - UGRA PRESS


Em julho de 2010, a UGRA PRESS lançou uma convocatória aos fanzineiros para a elaboração de um Anuário de fanzines.

Mesmo sem saber ao certo quem era e o que queria exatamente a UGRA, atendi à convocatória, e assim como outras dezenas de fanzineiros, enviei meus fanzines pelo correio. No início deste ano (fevereiro) recebi uma nova convocação, desta vez para o lançamento do Anuário. Novamente atendi à convocatória e, ansioso, compareci aos eventos de lançamento da publicação para finalmente tê-la em mãos.

A primeira impressão é a de que o anuário é uma edição feita com muito esmero. A capa em papel duro foi impressa individualmente com Estencil (feito e enviado pelo correio pelo lendário fanzineiro Law Tissot). Já na primeira página, através de uma fotonovela (nos moldes das feitas na saudosa revista Chiclete com Banana) os editores contam de modo bem humorado um pouco da história do anuário. E assim segue todo conteúdo da publicação: uma celebração aos fanzines e publicações independentes, com resenhas, entrevistas e matérias com quem de certo modo, colaborou com o mundo zineiro no ano de 2010.

Com uma leitura apurada, alguns temores que tinha com relação ao Anuário foram espantados. O primeiro era o temor de que o Anuário se tornasse apenas um guia frio de endereços e resenhas insossas e impessoais. Pelo contrário, as resenhas são bem feitas, bem humoradas e incentivam os leitores a conhecerem os fanzines.
Outro temor que foi por água, era o de que a editoração do Anuário fosse “tosca”, dificultando a leitura ou a busca de informações (definitivamente amigos, fanzine não precisa ser sinônimo de gambiarra). A UGRA teve o devido cuidado neste aspecto, e o anuário é uma publicação independente caprichada e bem editorada, com uma diagramação limpa, com algumas ilustrações bem selecionadas que permite uma leitura tranqüila e agradável.

Um ponto extra para o Anuário foi a capacidade de levar o discurso a respeito dos Fanzines além do banal e da nostalgia. O infográfico que mapeou as publicações recebidas dá boas informações a respeito dos fanzines nos dias atuais no Brasil: onde são produzidos, que temas têm, quais são suas tiragens e como foram impressos .

As matérias que finalizam o Anuário abordam também outras perspectivas importantes dos fanzines: as fanzinotecas existentes no Brasil; a utilização dos fanzines como recurso didático, do ensino fundamental à pós-graduação e; uma discussão filosófica a respeito do “Futuro Quântico dos paratópicos zines – feito pelo doutor Gazy Andraus - um dos maiores estudiosos dos fanzines na atualidade.

A leitura do Anuário deixa a agradável sensação de que os fanzines estão vivos, encontrando seu merecido e legitimo lugar na cultura contemporânea.

O anuário é uma publicação indispensável, e você pode adquirir tanto a versão física quanto a virtual gratuita. A UGRA provou que não está para brincadeira, parabéns aos editores Douglas e Leandro, esperamos ansiosos suas próximas conspirações e lançamentos.

ZINISMO RECOMENDA!

quinta-feira, 3 de março de 2011

ZINESCÓPIO - ACERVO DE FANZINES EM PDF + ENTREVISTA COM JAMER



Uma das boas novidades de 2011 com relação ao mundo dos fanzines é o blog ZINESCÓPIO feito pelo fanzineiro Jamer.
A proposta do fanzineiro é disponibilizar semanalmente fanzines de seu acervo pessoal para download no formato PDF .

O ZINISMO tinha a intenção de entrevistar Jamer, mas como nosso companheiro de guerrilha Law Tissot foi mais ágil e fez um ótimo trabalho, resolvemos no melhor dos espiritos fanzineiros e da ética "copy-left", reproduzir a entrevista que saiu publicada originalmente no blog da Fanzinoteca Mutação. ZINISMO recomenda!



Fanzinoteca Mutação: O que te motivou a criar o Zinescópio?
Jamer: Possuo uma grande coleção de fanzines impressos. Utilizei essa coleção na minha pesquisa no mestrado (mestrado em educação, defendido em agosto de 2010, na UFRGS), inclusive como referência bibliográfica. Utilizei também em algumas oficinas que ministrei. Hoje em dia com o acesso à informação online e cada vez mais rápido achei interessante disponibilizar essa coleção na internet, digitalizada. Comecei meio por acaso, digitalizei alguns zines em janeiro, e acabei colocando na rede. Na mesma semana tive a idéia de criar um blog, pra organizar e divulgar melhor. A aceitação foi imediata. 700 acessos no primeiro dia do blog, dezenas de e-mails elogiando a iniciativa. De lá pra cá, diversos contatos e colaborações. Muito bacana. O blog tem menos de um mês no ar, com uma média de 160 acessos diários. Tenho tentado postar 1 zine por dia, no mínimo.

Quais fanzines você editou e/ou participou?
Comecei a editar fanzines na escola, em 1994, no interior do Rio Grande do Sul, em Santa Maria. Fiz um "jornalzinho" da escola com a ajuda de alguns colegas, com quadrinhos e charges zoando os professores, e outros textos. Fui expulso do Diretório Estudantil na segunda edição do fanzine, devido ao material publicado, que foi taxado de inapropriado. Em 2000 comecei a escrever uma espécie de "coluna" chamada Inforégo, com crônicas, contos e resenhas de discos, filmes e livros. Enviava esses textos por e-mail e logo virou um site (e-zine) que ficou no ar em 2001 e 2002. Esse material se perdeu, e o site não existe mais. Depois editei um fanzine impresso chamado Badalhoca, sobre cultura pop em geral. Foram lançadas 3 edições, em 2004 e 2005. Na verdade o fanzine não morreu, e pretendo produzir mais números em breve. A segunda edição, inclusive, foi um projeto interessante, encartando o CD de uma banda de Santa Maria, chamada Pastor Alemão e a Murcilha da Graça. Os exemplares desta edição, na época, foram vendidas por um valor que custeasse a produção dos CDs e as cópias dos zines. Colaborei com o fanzine Dalí, de Santa Maria, e com um e-zine chamado Quimera, de Campinas/SP, entre outros sites, blogs e fanzines impressos.

Estaremos vivendo uma nova onda dos fanzines?
2011 está se mostrando um possível ano para um "revival" dos fanzines impressos, ou pelo menos um retorno da discussão sobre a linguagem e os mecanismos de ação dos fanzines. O documentário Fanzineiros do Século Passado, o Anuário de Fanzines do Ugra Press, o Ugra Zine Fest, a Fanzinoteca Mutação, o Zinescópio, a Tour de Zines que aconteceu na Bahia e em São Paulo acabaram dando uma mexida nessa cena um tanto adormecida dos fanzines. Sem esquecer dos estudos de pós-graduação do Gazy Andraus e a Editora Marca de Fantasia (Henrique Magalhães / Edgard Guimarães), que apesar de serem iniciativas de longa data incentivam e possibilitam essa movimentação e esse revival em pleno 2011. Acho que tem um charme no fanzine impresso que é imortal e parece que estas iniciativas que apesar de terem o mesmo tema como motor - o fanzine - são ações independentes umas das outras, que acabam coincidindo numa mesma época e evidenciando a potência dos fanzines em pleno 2011.

Tem acompanhado a atual cena nacional e do exterior?
Tenho me fixado mais nos estudos em educação, e utilizado a estética e a tática dos fanzines de uma forma mais pontual. Como a minha preocupação de estudo não é com a cena, com a distribuição, ou com a rede, e sim com o mecanismo articulador do “dizer” do fanzine, ou melhor, minha preocupação é com aspectos que dizem respeito à linguagem libertadora do fanzine em sala de aula, acabei me distanciando um pouco das cenas. Parei de trocar fanzines há algum tempo. O próprio Badalhoca, meu zine, em 2004 e 2005 teve pouca circulação via correio. A coisa ficou mais na mão, mesmo. Um resgate interessante dessa rede de troca e contato que se estabelece sobre o fanzine e principalmente os aspectos que levaram à sua formação é um dos aspectos mais positivos, pelo meu ponto de vista, de ações como a de Márcio Sno ao produzir o documentário Fanzineiros do Século Passado.



É possível existir zines impressos (no tradicional xerox) nesta realidade de redes sociais?
Esse é um ponto bastante interessante e atual. Outro dia eu estava pensando sobre os zines, sobre as trocas e principalmente sobre as informações. O que acontecia comigo e com muitos de meus amigos é que muita informação nos anos 90, sobre bandas principalmente, mas também sobre arte, sobre cinema e sobre quadrinhos precisava ser "garimpada". Naquela época as informações eram preciosas. Revistas como Bizz, General, as gringas, e a opinião e o conhecimento dos amigos eram a essência desse "garimpo" cuidadoso. Gravar em k7 um disco recém lançado era uma tarefa difícil, dependendo do disco e das condições. Uma banda lançava um disco lá fora e demorava meses pra chegar aqui no Brasil. Depois demorava meses pra você encontrar alguém que tivesse comprado o disco. Então você tinha um arsenal de fitas k7 virgens, levava na casa de um amigo e gravava (ouvindo) o disco todo. Agora basta um clique e uma conexão ADSL pra baixar o disco todo em poucos minutos. Os zines tinham um papel importantíssimo para a cena independente, em qualquer lugar do mundo. Era uma forma de mostrar e distribuir algo que poderia ficar restrito a poucas pessoas. O alcance do zine era pequeno, ainda assim. Hoje em dia, competir com a internet, neste sentido, é um contrasenso. Essa função o fanzine não cumpre mais, e jamais conseguirá cumprir novamente. Acho que, hoje em dia, o fanzine em papel pode desempenhar outras funções. Uma delas, por um lado, é parecida com a do vinil. Uma questão estética, de beleza e de tato. Um charme do colecionador, para o colecionador. Outra característica, que é própria dos zines é a estética suja, borrada, da colagem, do amadorismo, do xerox. Isso a internet não tem.

Quais foram os momentos zineiros mais importantes da história dos fanzines brasileiros em sua opinião?
Os fanzines surgiram como suporte para divulgação e propagação de alguns tipos de manifestação que não conseguiam o alcance do grande público, pois não conseguiam espaço em publicações. Foi o caso dos contos de ficção científica, dos quadrinhos e do movimento punk. Aqui no Brasil não foi diferente, e o momento zineiro que considero mais importante historicamente diz respeito aos quadrinhos nos anos 60 e 70. Formou uma rede que possibilitou praticamente tudo que existiu em termos de publicações alternativas de norte a sul do país dos anos 60 até recentemente. Outro período importante foram os anos 90 com os fanzines sobre música (do indie ao hardcore) e cultura pop, onde os fanzines tinham papel fundamental na divulgação de bandas e selos da cena independente nacional.

Como é a sua coleção de fanzines?
Não cheguei a fazer uma contagem da coleção, mas creio que tenho cerca de 300 exemplares de fanzines de vários lugares do Brasil, de diversos gêneros (música, quadrinhos, literatura política) e formatos. Em maior número possuo zines de música e cultura pop, e dentre os mais conhecidos posso citar Imaginary Friends, Scream & Yell, Magazine, Tupanzine, Tom Zine, Meninas Viciadas e Tudo É. Quanto às raridades um dos fanzines mais legais da coleção é o Atum, de Santa Maria/RS, e a primeira edição do Tupanzine.

Você tem bibliografia especializada no assunto 'fanzine"?
Existe muito pouca coisa publicada em português sobre fanzines e/ou mail-art. Sobre o tema tenho o livro "O que é Fanzine" (Henrique Magalhães). Também tenho outros livros que me auxiliam, mas não tratam especificamente sobre fanzines. Posso citar "A revolução eletrônica" (William Burroughs), "Mix tape - The art of cassette culture" (Thurston Moore), "Mutações em educação segundo Mcluhan" (Lauro de Oliveira Lima), "O que é Punk" (Antonio Bivar), "Kafka, por uma literatura menor" (Gilles Deleuze e Félix Guattari), “Espaço N.O. - Nervo Óptico” (Ana Maria de Carvalho), livros e artigos de artistas como Paulo Bruscky, são alguns materiais que eu utilizo bastante. Artigos, dissertações e teses sobre fanzines e mail-art podem ser encontrados online e é uma boa ajuda pra quem pesquisa o assunto. O pessoal da Zinco, uma ONG de Fortaleza/CE que hoje em dia infelizmente não está mais em atividade, disponibilizava em seu site (que está fora do ar) material deste tipo. Um material bastante interessante são os textos do rizoma, um site com um acervo enorme de textos sobre micropolítica, filosofia, arte, cibercultura e ativismo. O rizoma também está fora do ar, infelizmente, mas seus arquivos em pdf estão disponíveis na rede. Existem alguns livros sobre fanzines que são interessantes, que conheço mas não possuo, da editora Marca de Fantasia e também alguns livros importados, em inglês, que podem ser encomendados via Amazon.

Qual a importância dos fanzines neste início de século?
O fanzine possui um mecanismo de sedução interessantíssimo. Este é, por exemplo, um dos trunfos da utilização dos fanzines como suporte de experimentação em sala de aula e outras situações pedagógicas, exercitando a criatividade, a arte, a escrita, o pensamento. Esta propriedade que eu chamei de "mecanismo de sedução" é particular da essência dos fanzines, é extremamente potente, e é aí que reside, a meu ver, um dos motivos que podem impulsionar alguém, hoje em dia, a produzir um fanzine. Porque é esta característica que os distinguem das redes sociais e dos blogs. Portanto acredito que um fanzine não pode mais ser produzido com o intuito de fazer circular uma informação, pois pra isso existe a internet, que cumpre esse papel de forma muito mais eficiente (e é por isso que estamos fazendo essa entrevista por e-mail e não por carta, por exemplo, por causa de uma eficiência comunicacional). Mas um fanzine pode ser produzido atualmente com outros intuitos. Esses outros intuitos, que são diversos, e dependem de cada um, de cada anseio, é que dão importância aos fanzines impressos nos dias de hoje.

Link da postagem original.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

VIDEO FANZINOTECA MUTAÇÃO



Fanzinoteca mutação - Rio Grande (RS) coordenada pelo guerrilheiro Law Tissot, saiba mais aqui.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

FANZINOTECA MUTAÇÃO - ENTREVISTA COM LAW TISSOT



O professor de artes visuais e ilustrador Law Tissot conseguiu colocar em prática o sonho de muitos fanzineiros. Em um espaço físico localizado em uma antiga estação de trem (em Rio Grande – RS) funciona a FANZINOTECA MUTAÇÃO.
Neste espaço pode-se consultar um belo acervo de fanzines, xerocá-los por um preço módico e ainda participar de oficinas de graffiti , lambe-lambe e arte postal.
Conheça mais sobre este espaço na entrevista abaixo:



ZINISMO: A primeira pergunta é clássica: como se deu seu envolvimento com a cultura underground e com os fanzines?
LAW TISSOT: É difícil pecisar um "ponto zero", mas com certeza sem o Movimento Punk nada teria acontecido. Viver o espírito das ruas naquela época foi muito rico em todos os sentidos. Tem coisas que só as ruas fazem por nós. E no aspecto da arte, então, em plena abertura política dos anos 1980... Foi um privilégio ter sido adolescente naquele momento da nossa história, e ter encontrado todos aqueles caras.

Como foi o processo de criação e estabelecimento da FANZINOTECA MUTAÇÃO?
Eu sempre tive um grande entusiasmo pelos fanzines desde quando os conheci, provavelmente em 1983, 1984... Essa paixão aumentou quando comecei a fazer os meus próprios zines e entrar naquela rede de trocas e contatos pelos correios. Daí nasceu um desejo de ter um local para manter um acervo público de zines. Mas isso demorou muito, porque levei uma vida de aventuras urbanas entre os anos 1980 até 1999. Em 2001 entrei para o Curso de Artes Visuais da Universidade Federal do Rio Grande e aos poucos fui me envolvendo com outros aspectos da cultura brasileira. Com isso cheguei aos companheiros do Ponto de Cultura ArtEstação e através de um edital da Funarte (Interações Estéticas 2009) pude legitimar esse sonho, com espaço físico adequado, catalogação, copiadora e todo o resto... A maior dificuldade está em conseguir zines das décadas de 1980 e 1990, temos recebido muitas doações, é verdade, mas bem sabemos que a quantidade de zines e zineiros neste país foi enorme. Muita gente desapareceu na história e muitos zines - lamentavelmente - nunca mais serão lembrados.

Acredito que a Fanzinoteca mutação possibilite o primeiro contato de muitos leitores com os fanzines. Como você observa tal interação?
Existe uma nova geração que tem uma grande distância de tudo isso, do que vivemos e do que significa editar, reproduzir, distribuir um zine, com todos os elementos - do xerox aos correios - então, às vezes, por mais que eu me esforce e me entusiasme com as explicações, o pessoal prefere mesmo é ficar apenas conectados nas suas redes sociais e nos blogs (no caso do blog é muito curioso, pois os vejo como filhos digitais dos zines, em um certo sentido é claro). Mas é importante dizer que aqueles que fizeram - ou ainda fazem - parte do mundo dos zines são os que mais se emocionam (mesmo!) com nosso espaço, acervo e ações.


Você associa o maior acesso à internet e tecnologia como responsável pelo declínio da produção dos fanzines nos anos 00?
Não tenho uma resposta certa a respeito disso. Não creio que foi apenas a internet, na medida em que temos como exemplo o Zinismo, onde existe uma excelente relação entre o uso da internet e a produção / fomento dos zines. São muitos fatores que podem ter esfriado toda a cena underground. Por um lado as transformações são inerentes a cultura humana. Mas existem muitos companheiros fazendo algo para manter os zines vivos, é isso o que importa na verdade.

Como professor de artes visuais, gstaria que falasse um pouco sobre a linguagem e estética própria dos fanzines.
A liberdade criativa dos zines são a sua maior identidade, assim podemos experimentar todos os formatos, linguagens e poéticas que nossos talentos alcançarem.

Qual sua percepção sobre a cena zineira atual no Brasil e no mundo? Qual o lugar dos fanzines nos dias de hoje?
Existem nomes importantes hoje, que mantem os zines num nível de propagação bastante atraente, como é o caso do Fábio Zimbres, através da Mostra Transfer . Tem a cena de Fortaleza, com o Weaver, Lupin, Paulo Amoreira, JJ Marreiro... visitei essa turma em março e fiquei assombrado com tanta energia circulando. O Brasil é mesmo muito vasto, através da fanzinoteca tenho me surpreendido bastante. Mantenho contato com a cena de Portugal desde os anos 90 e através deles chego a outros países da Europa. Lá, me parece, os zines atingiram um outro aspecto. Mais sofisticado até. Acho que os fanzines brasileiros, quando inseridos - e se relacionando - com todas as manifestações da arte urbana contemporanea poderão encontrar uma identidade bem interessante.

Gostaríamos que fizesse uma pequena lista de bons fanzines e blogs para os leitores do zinismo, podem ser vivos ou mortos...hehe
É uma pergunta curiosa, pois eu tenho uma relação passional com qualquer espécie de zine. Não conseguiria eleger os melhores. Prefiro que os leitores do Zinismo acessem o blog da nossa fanzinoteca e descubram os zines do nosso acervo e todos os links que dispomos. Será uma experiência muito interessante, acredito!

Espaço livre para manifestação:
Gostaria que me escrevessem (tissot_law@yahoo.com.br) que prometo responder sempre. Quem puder visitar o sul do RS, venha até a cidade do Rio Grande e conheçam a nossa fanzinoteca. Quem puder doar um zine, melhor. Nossa idéia é ampliar cada vez mais nosso acervo de zines e preservar para as gerações futuras o maior número possível de exemplares, com seus conteúdos incríveis e idéias mirabolantes de seus autores.

ZINISMO RECOMENDA: visite o blog, mande e-mail e envie o seu fanzine! A causa agradece!

Ilustrações por Law Tissot.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

UGRA PRESS - I ANUÁRIO DE FANZINES


A UGRA PRESS é um coletivo de produção, disseminação e fomentação de cultura radical/alternativa, formada por um time respeitável de “ativistas do underground” como Law Tissot (Fanzinoteca Mutação), Jaum (desenhista e editor da revista Peiote), entre outros, capitaneado pelo Douglas Utescher (Zine life? e selo 2+2=5).

Entre outros projetos a UGRA pretende lançar o I Anuário de Fanzines, Zines e Publicações Alternativas, previsto para janeiro/fevereiro de 2011. Segundo Douglas a idéia é reparar uma perda resultante do declínio da produção dos fanzines nos anos 00quando “ desfez-se a bem estruturada rede de contatos entre editores e leitores que era, a grosso modo, a sustentação do movimentado cenário dos anos 80 e 90”.

Quem quiser participar do anuário basta enviar seu fanzine físico para a UGRA e preencher um formulário para identificação do fanzine.

Aproveite e acompanhe o blog da UGRA que possui sempre novidades reelevantes sobre o "mundo mágico e misterioso dos fanzines".