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segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

O GUITARRERO



Toda cidade pequena que se preze já teve um Guitarrero em sua praça. Balneário Fantasma não era diferente.

Naquele domingo de manhã Rodolfo passava pela praça voltando da feira do centro, quando viu aquela tradicional multidão que sempre se formava em torno de alguma atração na praça da matriz.
Como estava sem pressa para cozinhar o frango depenado que carregava consigo, parou para ver do que se tratava.
Lá estava. Um Guitarrero debulhando uma guitarra plugada em um pequeno amplificador.
Rodolfo sabia que ouvir um Guitarrero era uma questão de sorte. Geralmente não eram nada virtuosos, mas cantavam com fé digna de comoção. Se você tivesse a sorte de pegar um que tivesse um repertório cantarolável valia a pena vê-lo.

Rodolfo procurou uma brecha no meio das cabeças dos curiosos e começou a observar o pequeno show.
Era um homem de seus quarenta e cinco anos portando um belo “mullet” e bigode castanhos. Possuía um sorriso de cigano e rugas charmosas e sinceras em tornos dos olhos. Vestia jeans, camiseta florida e colete.

Rodolfo não gostava de hippies, mas resolveu dar crédito e audiência ao Guitarrero, pois o público parecia atento.

A música que o Guitarrero cantava era desconhecida, porém familiar.
A melodia tinha algo de conhecido, mas Rodolfo não especificar exatamente o quê. Começou a entender o porquê de tantas pessoas prestarem atenção ao hippie. Ele tinha carisma: cantava, sorria, babava com fúria na gaita - um show sincero. Valia a pena até despejar umas moedas naquele chapéu que estava no chão.

Rodolfo percebeu que a multidão se empolgava com o som ao ponto de perder a vergonha e acompanhar cantando em altas vozes as canções do Guitarrero. Para sua maior surpresa ele também se pegou cantarolando com o povo.

Dedilhados comparáveis ao dos Eagles, solos do Dire Straits, um vocal à la Creedence Revival. E as letras? Que letras eram aquelas? Músicas inéditas, sem dúvida. Mas como assim? Porque Rodolfo se percebeu cantando se nunca ouvira tais músicas? Porque lhes eram familiares?

E cantava. Cantava e parecia não dominar sua boca que abria e fechava num ritmo gostoso. Embora as letras parecessem claras, Rodolfo não sabia seus significados. “Foda-se” pensou, o que poderia haver de errado se sentia tão bem?

Começou a olhar um casal ao lado e estranhou algo, eles pareciam felizes também, mas cantavam outra música, que ao mesmo tempo era executada pelo Guitarrero, mais sensual e de vocal sussurrado. Reconheceu certa semelhança com o estilo de Marvin Gaye.
Voltou à sua canção e cantarolava, muito feliz.
Uma adolescente ao lado também lhe chamou atenção, ela berrava histericamente outra letra, outra música, um tanto boba, que também era executada pelo Guitarrero.
Rodolfo retornou o olhar para o casal vizinho e percebeu que eles se beijavam de modo lascivo e constrangedor. A música que eles cantavam era sensual demais para se restringir ao verbo.

De repente, as várias músicas se tornaram uma só, num refrão crescente e linear que se metamorfoseou enfim em um mantra.
E a roda abriu-se. Com seu sorriso largo o Guitarrero saiu tocando, conduzindo a multidão que recitava o mantra na qual a música se tornara.

Todos estavam muito felizes, satisfeitos e realizados. Não havia outra coisa a se fazer a não ser seguir o Guitarrero com seus acordes maravilhosos e porque não dizê-lo: celestiais!
Eis que o Guitarrero subiu na traseira de sua caminhonete velha e começou a bater palmas e formou-se um coro à capela.

Foi então natural: todos começaram a jogar seus valores no Guitarrero que batia palmas com seu sorriso cada vez mais largo, Rodolfo percebeu que seus dentes eram amarelos, mas que pensamento besta... Tirou sua carteira, seu relógio e até sua aliança e jogou na caçamba do Guitarrero, também era a única coisa certa a se fazer. E assim todos fizeram cantando e batendo palmas.

De repente a caminhonete começou a se mover e foi sumindo na poeira da rua principal de Balneário Fantasma. Todos deram adeus para o Guitarrero que sumia no horizonte, acenando de volta na caçamba do veículo– muitos tinham lágrimas nos olhos.
Alguns ficaram mais tempo – Rodolfo foi embora depois de vinte minutos. Pegou sua sacolinha de frango que jazia tristemente no chão empoeirado e começou seus passos para casa.

Foi andando mudo tentando digerir o que fora aquilo. À medida que se afastava do lugar onde estava a caminhonete e se aproximava de sua casa se sentia mais triste e crescia o abismo em si mesmo.

Como explicaria para Dinah a ausência de sua aliança.
-Maldito hippie!

sábado, 13 de dezembro de 2008

PAPAI MARX E O CONTO DE NATAL



Já estava chegando naquela época do ano em que George perdia o sossego. Seu cabelo e barba já estavam grandes e esbranquiçados como mandava a tradição. Era quase natal e mais uma vez ele seria o Papai Marx no vilarejo do Preá Atropelado, em Balneário Fantasma.

Papai Marx era a versão “balneariofantasmiana” de Papai Noel. Adotada em decreto municipal há mais de três décadas como “oposição e resposta à figura capitalista, individualista, neoliberal, consumista e esteticamente escrava da Coca-cola” representada pelo Papai Noel.

Papai Marx fora apenas uma parte do pacote de decretos natalinos. Outra medida determinava o fechamento de lojas e proibia as compras de natal no mês de dezembro para evitar o consumismo desenfreado. Nesta época só era permitida a troca de presentes manufaturados pelas próprias pessoas (por trabalho não alienado) em clima de camaradagem fraternal.

Era isso que perturbava o velho George. Sem dúvida era uma honra ser o Papai Marx há mais de uma década, mas cabia-lhe também o fardo de fabricar presentes para toda a vila (cerca de 317 pessoas). Nos últimos anos vinha improvisando brinquedos feitos com parafusos retirados das caçambas das fábricas falidas, mas isso já tinha virado até motivo de chacota.

Além dessa preocupação, a pequena empresa Chocolates Fantasma (que George abrira com a verba que recebeu quando foi demitido como cabeça de greve da Sanitários Baunilha) não ia bem das pernas devido à maldita crise. Tocava-a com obstinação que só era possível com a ajuda de seu velho amigo e sócio, o anão Cosme. Velho companheiro desde os púberes tempos dos cursos técnicos.

Era sexta-feira. Como de costume, depois de encerrarem a produção, George e Cosme ficavam papeando nas bancadas da fábrica, lembrando os bons tempos da greve dos trinta dias... Sonhando com o futuro e maldizendo seus desafetos.
Naquele dia específico George estava pensativo, olhando a fábrica em busca de uma solução para o problema dos presentes. Cosme sabia que nessas horas era sensato acompanhar sua quietude. Foi então que George gritou:
-As raspas!
-O quê?
-As raspas, Cosme! Farei algum presente com as raspas de Chocolate! Como não pensei nisso antes...

A noite inteira foi de intenso trabalho na Chocolates Fantasma. Cosme sabia que George era bom com idéias então o ajudou no que pode sem perguntar muito. Quando amanheceu os dois estavam exaustos mas haviam resolvido o problema do presente. George desenvolvera um licor com as raspas de chocolate que sobravam das máquinas misturando-as com cachaça e melado. Não gastaria nada na noite de natal e poderia distribuir o licor em pequenas garrafinhas para todos, que aliás se aqueceriam na densa neblina da noite na festa de natal da praça. Acabaram o serviço e despejaram todo o licor no maior tambor que encontraram (de diesel vazio) para curtir. Cosme foi para a sua casa e George ficou por ali mesmo onde morava, dormindo em cima de uma bancada, utilizando estopas como travesseiro.

Duas semanas depois (uma antes do natal) numa sexta feira, os dois amigos fariam a prova final da bebida curtida e maturada para a eventual correção de algum ingrediente. Fecharam a fábrica e sentaram-se na bancada cada um com um copinho cheio do licor de raspas de chocolate. Beberam.

Um alegre calor tomou conta de cada célula de George e Cosme e suas bochechas enrubesceram imediatamente. A conversa de sexta, que geralmente era mágoa arrastada, foi diferente. Longas elucubrações otimistas. Gargalhadas contagiantes ecoavam no velho galpão. O licor estava perfeito.

O que os dois mal podiam suspeitar é que aquela intoxicação peculiar que o licor propiciava era resultado não só da cachaça, mas principalmente do resto de diesel que se encontrava no tonel.

Noite de natal. Como de costume uma multidão esperava em frente à portinha do sindicato. Papai Marx desceria as escadas e cruzaria a praça até o coreto distribuindo com a ajuda de Cosme (travestido de duende operário) seus mimos manufaturados. Quando apareceram na porta, tinham um sorriso diferente.

Iniciaram então a tradicional marcha, distribuindo aos camaradas as garrafinhas com o licor de chocolate intoxicante. Subiram no coreto onde as crianças do colégio lhe esperavam para o coro com canções anarco-sindical-natalinas.

Cada cidadão presente na praça: fosse criança, velho ou mulher recebera uma garrafinha. Ao tomarem a bebida reproduziam a leve intoxicação já sentida por George e Cosme. E o torpor tomava seus corpos de assalto e era mágico. Toda a praça foi invadida por uma sensação de amor fraternal e leves alucinações faziam com que aquele coro fosse o mais maravilhoso, afinado e celestial. As luzes de natal brilhavam míopes em pequenas brumas coloridas contidas. Papai Marx fez um discurso acertado que tocou o coração de todos. Até o pequeno Cosme parecia-lhes simpático naquela ocasião. E fez muito sentido por um instante para todos morarem no vilarejo do Preá Atropelado. Eram companheiros e camaradas naquela jornada miserável, mas acima de tudo, eram irmãos. Nunca houve noite de natal como aquela...

FIM



EPÍLOGO
(Leitura opcional não recomendada para aqueles que gostam de finais felizes.)


Acabada a festa, todos voltaram para suas casas. Exceto George que só tinha a fábrica. Lá chegando, feliz com o sucesso da festa, bebeu todo o resto do licor. Seu corpo foi encontrado na hora do almoço de natal por Cosme. Foi enterrado com honrarias e muito choro. Existe no vilarejo uma rua com seu nome.

Cosme ficou louco. Depois da morte de George obstinou-se na reprodução do licor maravilhoso, nunca conseguindo reproduzi-lo perfeitamente. Faltava alguma coisa. Talvez se deixasse o licor maturar naquele velho tonel de diesel esquecido no canto da fábrica...

Benigno, um dos poucos capitalistas falidos que não fora banido de Balneário Fantasma, havia guardado um restinho do licor no dia da festa de natal. Após análises no espectro-fotômetro descobriu a fórmula secreta da bebida. E essa bebida, com o ingrediente secreto (óleo diesel) foi batizada ironicamente de Dieselina. E ela que entorpece os sentidos dos ex-operários sem sina de Balneário Fantasma, fornecendo breves consolos aos seus corações amargurados.

FIM


( Dedicado a dois Jorges reais, que ausentes retornam na lembrança nas épocas das festas de finais de ano.
)

terça-feira, 25 de novembro de 2008

JÚLIO E O PARADOXO DO PASSADO



Por ter encontrado e se casado com Marília, Júlio se considerava um cara de sorte.
Ele: um simples segurança, bruto e rústico. Ela: professora de crianças, mulher bonita e inteligente. Mas a frase feita existe para ser usada: os opostos se atraem.

Era segunda feira, Júlio olhava Marília servindo a comida e lembrava-se da dura batalha para conquistá-la. Mais de um ano de gracejos, bombons e flores. Na época ela acabara de chegar da capital, lugar do qual não gostava nem de ouvir o nome:
-Detesto aquele lugar, detesto.
-Por que?
-Não interessa. Júlio, eu tenho um passado e se quiser ficar comigo tem que aceitar ele morto e enterrado.

Então que fosse, Júlio se condicionou a não se importar. O passado era tempo gasto e inútil. O presente era trabalho e o futuro deveria ser construído agora. O que importava realmente era no que as pessoas tinham se tornado e o passado – ferramenta que participou dessa construção- deveria ficar guardada em gavetas invioláveis. Aliás ele também tinha seu passado de pequenos delitos quando menino pobre e depois teve o tempo como segurança de boate.

Como sabemos, Balneário Fantasma era um lugar onde a consciência de classe se aprendia desde a educação infantil. E isso provocava situações no mínimo, dignas de análise. Uma dessas situações ocorreu quando as indústrias eletroeletrônicas quiseram modernizar os formatos midiáticos. A substituição de LPs por CDs foi difícil. E a de fitas VHS por DVDs nunca ocorreu a contento. Uma campanha que começou nos jornais e terminou na câmara dos vereadores baniu os DVDs como “estratégia capitalista de transformação mercadológica da arte em produto”. Assim, Balneário Fantasma até hoje utiliza os lendários videocassetes. Todos os dias caminhões chegam com suas caçambas abarrotadas das obsoletas fitas de VHS provindas de várias cidades do país. Essas fitas são disputadas avidamente pelos vendedores que as revendem em pequenas bancas no centro. Há também o fenômeno e o mercado de DVDs novos que são convertidos em VHS. Coisas de Balneário Fantasma.

A única mácula na pretensa honestidade de Júlio tinha a ver com isso.

Desde criança e durante a adolescência Júlio consumia regularmente pornografia. Era seu vício. Se antes ele escondia revistas mofadas e coladas embaixo do colchão, hoje ele colecionava fitas VHS pornográficas.

Comprava essas fitas ao menos uma vez por semana e as trancava no guarda-roupa, junto com suas ferramentas de trabalho “tem que manter trancado Marília, senão o Júnior pode pegar minhas armas e já viu”.
Para assistir as fitas Júlio desenvolveu uma técnica astuta. Como ainda não havia “tirado” o ensino médio prestava provas do governo todo final do ano para eliminar matérias. Deixava então exposta uma pequena coleção de fitas de “tele-curso” como pretexto para poder se trancar no quarto e exercer seu pequeno vício sem que fosse incomodado: “Estou estudando, preciso de concentração”.

Quem julga Júlio por este pequeno vício tem uma perspectiva simplória da história. Ele tinha consciência que essas fitas eram em parte responsáveis pela sua fidelidade à Marília e pela longevidade de seu casamento que iria completar 12 anos no próximo dia 20. Júlio utilizava um mecanismo de projeção mental e transferia o que assistia nas fitas para seus momentos de maior intimidade e isso mantinha acesa a “chama do amor”.

É claro que Marília desconfiava de seus momentos trancados no quarto, mas afinal, sabia que Júlio era um homem bom e principalmente: nunca questionara sobre seu passado.

Na terça feira ao voltar do trabalho (como de costume) Júlio parou em frente à banquinha de VHS do seu fornecedor de confiança:
-E aí David! Como estamos hoje? Alguma novidade?
-Tem sim patrão, tem uma que você vai gostar. Converti para fitinha uma raridade do cinema nacional... deixa ver...
E assim Júlio levou consigo a fita “Loucuras tropicais do Brasil volume 7”.

Chegou em casa, beijou a mulher, olhou o menino fazendo a lição e foi direto para o quarto.
-Marília, vou estudar! Peguei uma fita de matemática, você sabe que eu tenho uma dificuldade lascada com os números!
-Tá Júlio, ainda vou colocar o arroz no fogo...

Júlio adentrou o quarto e eufórico fechou a porta.
Tirou a fita da mochila e colocou no vídeo-cassete.

A fita começou com uma trama óbvia. Uma festa universitária que descambava para a orgia.
A princípio não reparou, não quis reparar. Mas algo lhe incomodava naquela fita, um olhar de uma personagem ao fundo das cenas, com um drinque na mão.
O incômodo passou a fazer sentido. Aquele olhar... Era Marília, sem dúvida! Mais jovem e loira, mas era Marília. Ficou tenso. Pensou em tirar a fita e pisar em cima. Mas será... Talvez ela fosse somente uma coadjuvante do filme. Não era.
E a festa universitária seguiu seu rumo com a participação ativa de Marília em poses, posses e tudo que seu cachê permitira. E era tudo o que o inconsciente de Júlio mais temia ver.

A fita acabou. Júlio ficou olhando pela janela do apartamento. Era um por do sol bonito. “Então era esse era o tal segredo de Marília...”
Ejetou a fita do vídeo-cassete. Abriu o armário e colocou ao lado do revólver. Olhou para cada um dos objetos poderosos como se estivessem cada um em prato de uma balança.
Não sabia qual dos dois escolher.

-Vem Júlio, a janta está servida, vai esfriar! Marília batia na porta.
Aquela janta foi dotada de um silêncio constrangedor rompido regularmente pelos incômodos barulhos dos talheres na porcelana dos pratos.
-Tudo bem Júlio?
-Problemas no trabalho - justificou cabisbaixo.

O silêncio acompanhou-os até o quarto. Mais tarde na cama uma cena da novela fez com que Júlio e Marília cruzassem seus olhares. Um beijo e o apetite sexual (temporariamente contido) de Júlio voltava à tona. O ato em si foi memorável para aquele casamento já desgastado. As cenas da festa universitária se repetiam com uma tortura na mente de Júlio que em contrapartida possuía sua esposa com um sentimento de não pertencimento que lhe era extremamente prazeroso.

Nesse dia Júlio aprendeu forçosamente a rimar (como na mais vulgar das músicas bregas) as palavras antíteses dor e amor.
Na quarta feira Júlio se desfez de toda sua coleção de fitas VHS pornôs e creiam: nunca mais precisou delas.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

OS MENINOS E AS PEDRAS

por Flávio Grão



Como todos sabem Balneário Fantasma está situada entre a maior cidade do país e o litoral do estado. A maioria das pessoas a conhecem apenas através das placas das rodovias que passam por ela.
As indústrias foram embora e o povo teve que se virar com novas atividades. A identidade antes construída pelos operários em torno das fábricas e suas lutas sindicalistas não faziam mais sentido na nova realidade – um povo inteiro a vagar procurando um novo motivo para suas existências - muitas vezes a encontrando em uma garrafa de Dieselina: o tradicional destilado local feito com sobras de óleo diesel e raspas de chocolate.

Como alternativa econômica, os políticos e a sociedade civil começaram a reestruturar o entorno do antigo Lago da Neblina como possível ponto de atração para o turismo.

Duas grandes rodovias cruzam Balneário Fantasma. Em suas margens pequeninos pólos econômicos foram criados: borracheiros, pesqueiros, botecos, restaurantes, motéis e boates decadentes.
Esse era o caso do pobre vilarejo do Preá atropelado que contava com no máximo setenta habitantes já no alto da serra e antes da descida para o litoral.

No Vilarejo do Preá atropelado vivia a família de Lucas.
Lucas e seus amigos foram criados na margem da rodovia e desde pequenos um de seus passatempos preferidos era ficar sentados no acostamento olhando os carros: bólidos velozes que passavam pela rodovia com seus interiores hermeticamente lacrados repleto de pessoas brancas como ceras ignorando tudo o que tivesse às margens – inclusive e principalmente eles.

Volta e meia um carro furava o pneu e parava a contragosto. Era sempre um momento rico para Lucas e seus amigos, pois no vilarejo não havia veículos (a não ser a Kombi onde morava o Sr. Galdêncio que dizem que já andou um dia). Nessas situações havia uma regra: nunca se aproximar. Descobriram isso certa vez quando foram oferecer ajuda a um senhor de bigode branco e ele os ameaçou com uma chave de roda.

Lucas e seus amigos descobriram a brincadeira voltando da escola pela margem da rodovia em uma sexta feira.
Naquele dia Lucas tinha tomado um sermão do professor (por ser o único da classe a tirar média D) e seus amigos o cercavam aos gritos com a intenção de irritá-lo:
-Burro! –Burro!
Lucas (que tinha o pavio curto) apelou e começou a atirar pedras neles.
Uma dessas pedras atingiu em cheio o vidro de um carro que trincou de imediato.

O carro brecou e seu motorista desceu aos gritos:
-Seus filhos da...
Antes que ele pudesse acabar o xingamento Lucas e seus amigos já se embrenhavam na mata. Correram até chegar em uma clareira onde desabaram a rir.
Aquele riso cúmplice tinha um significado especial e todos entenderam aquilo no momento em que o veículo parou. Era a descoberta de algo mágico: Mais que um modo de interação com aqueles seres intocáveis era um meio de diálogo com um mundo que teimava em ignorá-los.

Naquele final de semana começaram as travessuras. O local preferido era em uma parte da estrada cavada no meio de um morro de onde poderiam atingir os carros sem serem vistos.
-Este cinza é o meu!
-Aquele grande é meu! Meu!
-Eu quero esse preto!

Com o passar do tempo adquiriram a técnica precisa de atirar as pedras de modo que o vidro dos carros apenas trincasse. Sabiam que se fosse uma pedra muito grande o vidro arrebentaria, como da vez em que a caminhonete derrapou e quase bateu de frente com o ônibus que vinha no sentido contrário. Em seus pensamentos simples sabiam que só queriam atenção. Machucar alguém era errado.

E os carros pertenciam-lhes a partir do momento em que paravam com seus vidros quebrados e seus motoristas tinham reações desencadeadas por suas ações. Adoravam a sensação de controle.

De cima de uma árvore, atrás de uma pedra ou dentro de uma moita, o ápice era ouvir os xingos ou resmungos dos motoristas. Entreolhavam-se e tapavam as bocas sufocando suas gargalhadas cúmplices que só podiam eclodir depois que os carros retomassem seus cursos.

Os meninos colecionavam como figurinhas as diversas reações aos vidros trincados: loucos que desciam do carro e pulavam xingando; mulheres que desciam e xingavam mais ainda; jovens que olhavam incrédulos seu bem danificado. Nenhuma reação era exatamente igual à outra e os meninos comparavam orgulhosos seus feitos:
-O seu carro cinza não foi nada... Legal foi o vermelho que eu acertei... O velho até chorou!
-Legal mesmo foi quando aquele homem do carro amarelo chutou o farol do carro...

Com o passar do tempo a novidade foi diminuindo e o simples trincar dos vidros dos carros já não despertava prazer algum nos meninos.
Foi aí que Lucas matutou em casa uma idéia que julgou ser excepcional.

Uma outra regra que todos eles conheciam é a de que não se devia mexer com os caminhões.
Os caminhoneiros que transitavam naquela região eram vistos como motoristas particularmente perigosos por suas ações insanas como fechar ou pressionar os carros pequenos, brigar nos botecos e não pagar as garotas das boates. Tinham um apetite incomum para confusões e viviam bêbados de Dieselina.

Mas Lucas pensou que envolver os caminhões na brincadeira seria um passo natural e foi o que resolveu fazer naquela tarde de sexta feira.
-Tá doido Lucas?
-Eu sei o que estou fazendo, vamos esconder.
O grande caminhão surgiu no meio da neblina e parecia vir vagarosamente como se trouxesse em sua carga o destino de todos.
O clima era tenso e Lucas tentou relaxar os amigos:
-Esse caminhão preto é meu.

O caminhão se aproximou e a pedra foi arremessada causando uma decepcionante fissura no pára-brisa para alivio de todos.
-Que merda! – Não fez nada!
-Que droga, prefiro atacar nos carros, pelo menos racham!

O caminhão ao invés de uma brecada brusca, parou delicadamente.
Lucas e seus amigos ficaram esperando o motorista descer enfurecido, mas ninguém desceu.

Minutos passaram-se e nada.
De repente a porta abriu-se. Mas ainda assim ninguém desceu.
Lucas ficou intrigado. Tudo acontecera de uma forma totalmente inversa ao que havia previsto.
Mas ele se surpreendeu mesmo quando seus amigos começaram a descer lentamente, um trás do outro pelo barranco e se dirigiram pela estrada ao caminhão que ainda estava parado no acostamento.

Lucas sabia em seu íntimo que não havia o que fazer. Ficou passivamente do alto do barranco acompanhando com os olhos o modo como cada um dos meninos caminhava humildemente arrastando seus chinelos gastos até subir no caminhão.

O último, antes de subir, olhou para trás: um olhar sem foco e sem direção para além de Lucas. Seu rosto não tinha remorso, não tinha nada. Era apenas um rosto cumprindo sua sina. A porta do caminhão se fechou. O motor ligou e ele retomou seu caminho suavemente até que lentamente foi engolido pela neblina no horizonte da serra.

Ninguém nunca mais viu os amigos de Lucas.

Dizem que eles aparecem às vezes em dia de neblina intensa na beira da represa, brincando na areia, correndo e atacando pedras:

...Este cinza é o meu...
...Aquele grande é meu! Meu...
...Eu quero esse preto...

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

DANILO E A MÁQUINA DE XEROX

Por Flávio Grão



Danilo sempre quis ter sua própria máquina de Xerox, mas nunca imaginou que isso custaria-lhe a própria bunda.

Ao contrário das outras crianças que queriam Autoramas ou bicicletas e gostavam do lago da cidade onde moravam, a nada notória Balneário Fantasma, Danilo preferia desenhar e adorou quando descobriu a possibilidade de duplicar seus próprios desenhos.

A paixão começou ainda no ginásio. Pedia dinheiro para sua mãe para xerocar mapas de Geografia e textos de história e levava secretamente (no meio dos trabalhos) desenhos toscos do Batman, caricaturas dos professores ou desenhos sanguinolentos que adorava fazer para impressionar seus colegas de classe.

Quando adolescente (como todos que não gostavam do lago de Balneário Fantasma) Danilo passou por uma fase introspectiva e se isolou em seu quarto acompanhado apenas de velhas fitas de punk rock que herdara de seu tio suicida.

Aquelas músicas pareciam ter sido feitas sob encomenda para aquela sua fase da vida. Perfeitos consolos e justificativa para toda a “tropicalidade” e “alegria” que não conseguia aceitar em Balneário Fantasma “...um dia você vai descobrir que todos te odeiam e te querem morto...”

A identificação com a cultura punk foi imediata. Um alívio descobrir que existiam outros que pensavam como ele. Passou a não se sentir o único de sua espécie na galáxia – poderia até se reproduzir se tivesse sorte.
À medida que o tempo avançava, as músicas e a cultura punk começaram a modificar não só a sua mente, mas também sua aparência. Quando entrou no ensino técnico foi ao barbeiro disposto a uma mudança radical: “quero estilo moicano”.
O barbeiro entendeu “estilo americano” e ele ganhou um corte parecido com o do cantor Arnaldo Antunes que contribuiu ainda mais para o seu isolamento na escola e comunidade.

A primeira vez que teve um fanzine nas mãos foi quando conheceu os punks em um festival de hardcore onde tocou a lendária banda Genocídio Suicida. Nesta época, Danilo utilizava uma vela de ignição pendurada no pescoço (alternativa barata ao cadeado de Sid Vicious) , uma espécie de protesto contra a indústria automobilística e o capitalismo. Não demorou para mudarem seu nome de Danilo para Punk Vela, ou Vela para os íntimos.

Assim que leu os primeiros fanzines virou fã incondicional desse veículo de comunicação que era a representação escrita do que acreditava. Em pouco tempo passou a colaborar via correio com vários deles. Não demorou para criar o seu próprio fanzine : o Vela Punk.

Danilo se formou no ensino médio e abandonou o corte americano. Agora era mais um trabalhador das raras indústrias que sobraram em Balneário Fantasma, mais precisamente no laboratório químico da Indústria de Sanitários Baunilha.

Com o passar dos anos tornou-se mais eclético e seu gosto estético pela cultura punk passou a abarcar também a chamada cultura alternativa (por favor, não hippie). Agora era colaborador assíduo de uma dúzia de fanzines dos mais variados temas: quadrinhos, música alternativa, punk, ecologia etc. Colaborava com resenhas, charges, quadrinhos e produções gráficas feitas a partir de colagens e xerox que tirava no escritório da firma escondido entre formulários e relatórios do controle de qualidade.
Era sempre uma aventura: Danilo chegava uma hora antes do expediente e ficava de ouvido atento ao portão da firma enquanto fazia suas montagens xerográficas.



Um dia algo de maravilhoso aconteceu.
Danilo estava finalizando uns relatórios na bancada do laboratório quando Evaristo (diretor da Sanitários Baunilha) entrou na sala acompanhado de um rapaz e apontou um canto da sala:
-É aqui que vai ficar.
O rapaz colocou uma caixa cuidadosamente em cima de uma mesa.
-É Danilo, chega do pessoal do laboratório ficar gastando a minha máquina de xerox tirando cópias dos relatórios... Agora o laboratório terá sua própria máquina!
Danilo ficou boquiaberto... Mal podia falar. Seu sonho havia se concretizado. Assistiu em câmera lenta o desembrulhar da máquina, sua instalação e a explicação de seu uso.

Uma semana depois o número um de seu fanzine novo estava pronto e com cinqüenta cópias quentinhas: Candle Days era seu nome.

Com o Candle Days, Danilo abandonou a linha panfletária/didática do Vela Punk e se embrenhou por uma mais autoral: textos, poemas, resenhas e ilustrações. O Candle Day conferiu certa identidade a Danilo que passou a ser reconhecido na cena como um jovem pensador e poeta anarquista. Distribuía seu fanzine gratuitamente em bares, shows, protestos e portas de faculdades.

Com o passar das semanas, Danilo começou a desenvolver uma fixação pela máquina que não demorou a tornar-se uma verdadeira paixão. Além das possibilidades práticas que a máquina oferecia, apreciava seu design moderno, seus botões coloridos, seu visor digital, a velocidade das cópias, suas regulagens de tonalidade, seu cheiro e é claro: a insubstituível sensação prazerosa de desembrulhar um toner novinho... Bons tempos.

A experimentação gráfica de Danilo começou a evoluir. Começou tirando Xerox da própria mão, depois da mão em movimento; mais tarde em um acesso de ousadia tirou uma cópia do próprio rosto (apesar de dizerem que a luz da máquina de xerox cegava). A capa do Candle Days número 2 era seu rosto xerocado em expressão de dor aterrorizante - agora com mais páginas e maior tiragem, patrocinado indiretamente pela Sanitários Baunilha.

A paixão se tornou um vicio: diariamente Danilo chegava pelo menos uma hora mais cedo para ficar a sós com seu objeto de desejo.

Um dia teve um insight ao ver a capa de um disco do cantor Tom Zé. A capa em questão (segundo a lenda) trazia a imagem de uma bolinha de gude delicadamente encaixada no ânus de uma modelo, de modo a parecer-se com um enigmático olho azul. Danilo teve uma idéia que pensou ser genial. Tirar uma fotocópia da própria bunda. É, seria ótimo! Poderia utilizar tal cópia como capa! Faria uma intervenção ou montagem no xerox para parecer outra coisa: uma montanha, um castelo... Seria um segredo como o de Tom Zé. Mal poderia esperar para colocar tal idéia em prática.
Chegou na quarta feira às cinco horas da manhã.

Entrou no laboratório afoito. Abaixou as calças e a cueca e subiu na máquina com cuidado de modo a apoiar a bunda sem forçar o vidro. Sentou-se e levantou os bagos para cima (eles atrapalhariam a composição e simetria da imagem). Apertou o botão: 10 cópias.

Sentia a máquina passando a luz suavemente, lendo sua bunda e gostou daquela sensação: quentinho, confortável. Porque não? 100 cópias.
A luz passando em suas nádegas era relaxante e confortável. Cochilou.

Acordou algum tempo depois. Suas nádegas estavam estranhamente quentes e adormecidas. Olhou o número de cópias no visor da máquina: dois mil novecentos e cinqüenta, dois mil novecentos e cinqüenta e um...
Pensou que era hora de sair de cima da máquina, mas não conseguiu.

Para seu horror sua bunda estava grudada na máquina. Percebeu que havia um leve cheiro de queimado na sala e um barulho de hambúrgueres fritando: sim, sua bunda estava sendo frita pela máquina que aquecera com o número elevado de cópias.
Notou então que as folhas já se espalhavam pelo chão com as reproduções de sua bunda e que tinha dormido mais do que pensava. Já era quase oito horas, horário em que o Diretor Evaristo chegava pontualmente na firma.

Tentou sair. Sua bunda estava grudada no vidro do Xerox, sentiu dor. Tentou sair de ladinho e também não conseguiu. Enquanto tentava sair, a velocidade das cópias aumentava e a luz (antes inocente) que passava por sua bunda atingiu uma velocidade estroboscópica mudando para um tom vermelho ameaçador.

As folhas eram cuspidas em alta velocidade na sala. Começou a suar e para piorar as coisas ouviu o barulho do carro de Evaristo chegando no estacionamento. Tomou então uma atitude extrema.

Pulou da máquina de xerox abruptamente e parte da sua bunda ficou grudada no vidro dela - nunca sentira tanta dor: perdera o topo das nádegas.
Olhou para o vidro da máquina de xerox: os pedaços de sua bunda estavam lá como exatamente dois hambúrgueres grudados em uma chapa de lanchonete mal untada.
O que restou de sua bunda sangrava e as folhas com fotocópias dela forravam o chão do laboratório...

Não teve tempo para pensar: pegou papel toalha e colocou no que sobrava de sua bunda esperando que estancasse o sangramento. Rapidamente começou a recolher os papéis no chão e colocou tudo em sua mochila para eliminar as provas.
A máquina continuava soltando cópias e não conseguia pará-la. Desconectou-a então da tomada.

Pegou uma espátula, raspou os restos de sua bunda que estavam no vidro da máquina e jogou tudo no lixo com muito sofrimento e pesar.
Nesse exato momento Evaristo subiu as escadas e Danilo disfarçou todo aquele absurdo da melhor forma que pode: apoiou-se sobre o balcão do laboratório e fingiu estar analisando relatórios de controle de qualidade.
- Bom dia Danilo! Madrugou de novo? Desse jeito você fica rico, heim?
Evaristo foi tomar café e Danilo ficou no laboratório tentando entender a gravidade do que acontecera.

Mais tarde, quando todos os funcionários chegaram ao laboratório o estagiário percebeu que a máquina ao ser ligada tirava cópias ininterruptamente. Ligaram para a manutenção que chegou no final da tarde.

Depois de muito analisar e arrumar o botão quebrado, o técnico do xerox chamou Evaristo e contou-lhe que o toner que tinha sido substituído no dia anterior já acabara.
Evaristo olhou para todos do laboratório como se procurasse algum culpado. Lembrou-se dos rumores de que os estagiários tiravam cópias de trabalhos da faculdade clandestinamente. Disparou em um acesso de autoritarismo:
-Sabe como é... Nessa porra de laboratório, xerocam tudo! Até o próprio cu! Vou tirar essa merda dessa máquina daqui amanhã mesmo.
Bateu a porta e saiu bufando pelas escadas.

Os funcionários do laboratório entreolharam-se e deram de ombros.
Danilo sentiu-se aliviado porém triste. Sua traquinagem passara desapercebida mas a máquina de xerox sairia do laboratório. E pior: sua bunda estava arruinada para sempre.

E foi assim: traumática e dolorida - como qualquer separação - o fim da paixão de Danilo pela máquina de xerox.