Prólogo
Coincidências existem. O que não existe é o destino. Acreditar que as coisas estão pré-determinadas é discurso de vagabundo: equivale a “largar mão”, afinal que diferença faz? Se há o destino, nada do que fazemos mudará o que está escrito. É cuspir em tudo que construímos até hoje, a tal da história da humanidade. As coisas são como são, é o que dizem. Óbvio, mas são como são porque nos mexemos para que assim seja e porque para algum lugar elas deveriam ir. O contrário é que seria assustador. Na pequenez do nosso dia-a-dia, nos pequenos atos que parecem desconectados da grandeza desse mundo, acrescentamos nossa sagrada contribuição para que as coisas continuem indo para algum lugar. Mesmo que nós não tenhamos a menor idéia pra onde seja.
Rumo a LanzaroteTenho o costume de ler antes de dormir. Bom, eu e outros milhões de pessoas no planeta, mas isso não vem ao caso. O que vem ao caso é que, em alguma noite de 2008 (e se minha memória não me engana deve ter sido em algum momento do primeiro semestre), peguei o
Cadernos de Lanzarote, de
José Saramago, e mergulhei naquela meia hora de leitura pré-sono. A leitura transcorria agradável, e lembro que pensei na importância do escritor português. Fixei-me na idéia de que ele é talvez o último gênio vivo da literatura. E que lê-lo em vida, portanto, é um privilégio. Recordei Jorge Amado, Paulo Freire, José Chasin, Darcy Ribeiro, Jacob Gorender e tantos outros, hoje finados, mas que tive o prazer de ler enquanto respiravam o mesmo ar que eu. Não digo que fossem gênios como Saramago, mas isso não tirava a satisfação de compartilhar de suas idéias com eles por aí, ainda a tê-las.
Naquele momento de divagação e com essas abobrinhas na telha, tive um insight: “Nesse exato momento em que estou lendo seu livro, o que será que passa pela cabeça de José Saramago?” Não obtive resposta. E decidi continuar a leitura.
Transcrevo exatamente o parágrafo seguinte com o qual me deparei:
“
Ray-Güde informa-me de que recebeu da Polônia resenhas acerca do Evangelho e que este se encontra na lista de obras de maior venda. Lamenta não ser capaz de me traduzir as opiniões da imprensa polaca, mas vai adiantando que o escritor Andrczej Sczcipiorski, o mais importante dos autores polacos publicados pela mesma editora, gostou muito do livro... Ouvindo isto, ponho-me a imaginar o que mais gostaria de fazer nesta altura da vida (sem ter de perder nada do que tenho, claro está), e simplesmente descubro que seria perfeito poder reunir em um só lugar, sem diferença de países, de raças, de credos e de línguas, todos quantos me lêem, e passar o resto dos meus dias a conversar com eles”
Travei na hora. Uma sensação de plena felicidade chegou como uma onda, e deixei que ela me arrastasse. Fui pra bem longe do meu quarto, viajei pras Ilhas Canárias, mais exatamente pra mais oriental das ilhas desse arquipélago: Lanzarote. Parei na casa de muro branco - que possui curiosamente o nome de
A Casa -, abri a porta, brinquei com os cães e dei a mão ao mestre Saramago.
O parágrafo acima é –
claro está, como ele mesmo gosta de dizer – fruto da minha imaginação, mas todo o resto é verdadeiro. Esse humilde ateu aqui, e o ateu famoso autor do
Memorial do Convento, juntos numa coincidência que muitos não perderiam a chance de classificar como “a prova irrefutável de que o destino existe”. Penso diferente: foi apenas uma grande e deliciosa coincidência. E tenho certeza que o Saramago diria o mesmo.
Epílogo
Acabei de chegar em casa. Estive com Saramago. Não, não fui a Lanzarote. Saramago é que veio até nós, para o lançamento mundial do seu novo livro,
A Viagem do Elefante. Debilitado pela doença, mas lúcido, absolutamente lúcido. Feliz por estar vivo. Aproveitando cada momento, cada instante. E querendo mais. “Tempo”, disse ele. “Vida”. Desnecessário dizer que esse é o voto generalizado: que ele tenha muito tempo e vida pela frente, para continuar escrevendo e, dessa forma, dando mais sentido ao nosso tempo e a nossa vida. Essa é a coincidência que encerra. No dia do meu post, “coincidentemente” sobre o Saramago, tive a honra de encontrá-lo. Um brinde ao mestre! Um brinde ao imponderável!