sábado, 29 de novembro de 2008

GENIUS SECULI


por Edu Zambetti

Tanto para as versões oficiais como para as “teorias da conspiração”, a verdade é que quaisquer fatos ou relatos nunca devem ser engolidos como se fossem aspirinas. O questionamento, o estudo preciso e a busca de informações coerentes em direção da realidade sobre importantes assuntos de nossa história, sem dúvida, são os melhores colírios.



Zeitgeist – The Movie (2007)
Filme produzido por Peter Joseph que apresenta uma série de teorias da conspiração relacionadas ao Cristianismo, ataques de 11 de setembro e a Reserva Federal dos Estados Unidos da América.

Filmes Correlatos:

Mind Control Made Easy or How to Become a Cult Leader
http://zinismo.blogspot.com/2008/11/controle-da-mente_2406.html

O Deus Que Não Estava Lá:
http://www.guba.com/watch/3000084804

Ataque ao Pentágono:
http://www.archive.org/details/Pfilosofia-ataque_ao_pentagono645

Torres Gêmeas:
http://video.google.com/videoplay?docid=-7672112338550693256&hl=en

A Onda (experiência nazi)
http://www.guba.com/watch/3000082444

Espionagem:
http://www.archive.org/details/Pfilosofia-espionagem656

O Caminho para a Tirania:
http://www.archive.org/details/Pfilosofia-o_caminho_para_a_tirania_1462

Nós Pousamos na Lua:
http://www.archive.org/details/Pfilosofia-nos_pousamos_na_lua115

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

SINTONIA DE IDÉIAS


Por Marcelo Viegas

Prólogo

Coincidências existem. O que não existe é o destino. Acreditar que as coisas estão pré-determinadas é discurso de vagabundo: equivale a “largar mão”, afinal que diferença faz? Se há o destino, nada do que fazemos mudará o que está escrito. É cuspir em tudo que construímos até hoje, a tal da história da humanidade. As coisas são como são, é o que dizem. Óbvio, mas são como são porque nos mexemos para que assim seja e porque para algum lugar elas deveriam ir. O contrário é que seria assustador. Na pequenez do nosso dia-a-dia, nos pequenos atos que parecem desconectados da grandeza desse mundo, acrescentamos nossa sagrada contribuição para que as coisas continuem indo para algum lugar. Mesmo que nós não tenhamos a menor idéia pra onde seja.

Rumo a Lanzarote

Tenho o costume de ler antes de dormir. Bom, eu e outros milhões de pessoas no planeta, mas isso não vem ao caso. O que vem ao caso é que, em alguma noite de 2008 (e se minha memória não me engana deve ter sido em algum momento do primeiro semestre), peguei o Cadernos de Lanzarote, de José Saramago, e mergulhei naquela meia hora de leitura pré-sono. A leitura transcorria agradável, e lembro que pensei na importância do escritor português. Fixei-me na idéia de que ele é talvez o último gênio vivo da literatura. E que lê-lo em vida, portanto, é um privilégio. Recordei Jorge Amado, Paulo Freire, José Chasin, Darcy Ribeiro, Jacob Gorender e tantos outros, hoje finados, mas que tive o prazer de ler enquanto respiravam o mesmo ar que eu. Não digo que fossem gênios como Saramago, mas isso não tirava a satisfação de compartilhar de suas idéias com eles por aí, ainda a tê-las.

Naquele momento de divagação e com essas abobrinhas na telha, tive um insight: “Nesse exato momento em que estou lendo seu livro, o que será que passa pela cabeça de José Saramago?” Não obtive resposta. E decidi continuar a leitura.

Transcrevo exatamente o parágrafo seguinte com o qual me deparei:

“Ray-Güde informa-me de que recebeu da Polônia resenhas acerca do Evangelho e que este se encontra na lista de obras de maior venda. Lamenta não ser capaz de me traduzir as opiniões da imprensa polaca, mas vai adiantando que o escritor Andrczej Sczcipiorski, o mais importante dos autores polacos publicados pela mesma editora, gostou muito do livro... Ouvindo isto, ponho-me a imaginar o que mais gostaria de fazer nesta altura da vida (sem ter de perder nada do que tenho, claro está), e simplesmente descubro que seria perfeito poder reunir em um só lugar, sem diferença de países, de raças, de credos e de línguas, todos quantos me lêem, e passar o resto dos meus dias a conversar com eles”

Travei na hora. Uma sensação de plena felicidade chegou como uma onda, e deixei que ela me arrastasse. Fui pra bem longe do meu quarto, viajei pras Ilhas Canárias, mais exatamente pra mais oriental das ilhas desse arquipélago: Lanzarote. Parei na casa de muro branco - que possui curiosamente o nome de A Casa -, abri a porta, brinquei com os cães e dei a mão ao mestre Saramago.

O parágrafo acima é – claro está, como ele mesmo gosta de dizer – fruto da minha imaginação, mas todo o resto é verdadeiro. Esse humilde ateu aqui, e o ateu famoso autor do Memorial do Convento, juntos numa coincidência que muitos não perderiam a chance de classificar como “a prova irrefutável de que o destino existe”. Penso diferente: foi apenas uma grande e deliciosa coincidência. E tenho certeza que o Saramago diria o mesmo.

Epílogo

Acabei de chegar em casa. Estive com Saramago. Não, não fui a Lanzarote. Saramago é que veio até nós, para o lançamento mundial do seu novo livro, A Viagem do Elefante. Debilitado pela doença, mas lúcido, absolutamente lúcido. Feliz por estar vivo. Aproveitando cada momento, cada instante. E querendo mais. “Tempo”, disse ele. “Vida”. Desnecessário dizer que esse é o voto generalizado: que ele tenha muito tempo e vida pela frente, para continuar escrevendo e, dessa forma, dando mais sentido ao nosso tempo e a nossa vida. Essa é a coincidência que encerra. No dia do meu post, “coincidentemente” sobre o Saramago, tive a honra de encontrá-lo. Um brinde ao mestre! Um brinde ao imponderável!

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

FRUTAS FRESCAS E VEGETAIS PODRES



Por Ricardo Idéia

Confesso que tremi quando foi decidido o tema dessa semana. “Coincidência... ou não?” pode dar belos contos como os do Grão e do Zambetti, mas contos definitivamente não é o meu forte.
Pensei em algo mais parecido com a reflexão do Eterno, até porque aconteceram fatos, digamos, intrigantes desde que o tema foi decidido.
Primeiro o Zambetti postou por aqui um texto sobre softwares para produção musical caseira, exatamente no mesmo dia que meu “Vuze” (programinha similar ao SoulSeek, Kazaa, etc, mas destinado a baixar arquivos em torrents, geralmente gigantescos!) bufava com downloads de vários softwares para produção musical.
Dias depois disso enquanto eu e o Zambetti falávamos um monte sobre tais softwares, o Sapo Banjo banda do Zambetti fez um show aqui em Pira, bem perto de casa, mais que coincidência, nesse caso, conveniência!
Pra fechar o ciclo, mandei um rascunho da primeira brincadeirinha que fiz com os softwares que havia baixado no mesmo dia em que o Zambetti subiu um texto sobre o Subsapiens, projeto de Eden Silveira que também é voltado a música eletrônica assim como o meu.

Mas esse monte de acontecimentos envolvendo eu e o Zambetti não seria o suficiente para um post. Não aqui no Zinismo. Assim, apesar de maltratar meus neurônios durante anos a fio, foram eles que me socorreram nesse post.

Final da década de oitenta. No bairro do Ipiranga em São Paulo uma enorme molecada acompanhava a cena punk rock e metal e dividia tudo que podia (menos os punks xixi extremistas e os true metals de direita!). Dessa forma, discos eram emprestados e quase nunca devolvidos, mas no geral eles rodavam na mão de todos aqueles garotos afoitos por música.
Com um álbum específico criou-se até uma tradição. Aquele que uma vez teve o “Fresh Fruits for Rotting Vegetables” do Dead Kennedys, o adquiriu “surrupiando” seja na loja da velhinha ali no Sacomã, seja tomando o disco de outro “amigo” da galera.
Eu até tenho a teoria que existiam apenas três exemplares do vinilzão branco do DK no Ipiranga, mas esses três foram de umas quarenta pessoas!
É claro que eu mesmo tive um desses por um tempo. Numa das inúmeras festas que rolavam na minha casa, o vinil foi esquecido. Não marquei bobeira e logo fiz uns desenhos e escrevi “idéia” no rótulo com uma esperança ingênua de que com esses sinais ninguém iria roubá-lo mais de mim. Também não posso reclamar, o disco ficou um bom tempo em casa, e eu teria sido egoísta se “quebrasse a corrente”! Inevitavelmente o disco acabou sendo furtado de minha casa. Beleza! Havia cumprido minha parte na tradição do “Fresh Fruits...”
Alguns meses se passaram e de repente me bateu uma saudade daquele vinil, precisava arrumar um jeito (um trouxa) pra roubar o disco de novo. Fiquei sabendo que o Ratão, um playboy que morava duas ruas atrás da minha e que eu não ia muito com a cara, estava com um Fresh Fruits na mão. Passei umas três semanas amaciando o playboy na conversa. Foi difícil e quanto mais ele negava, mais decidido eu ficava que teria o disco de novo. Dei mole quando deixei roubar o meu. Porra! Tinha até identificação, meu nome no rótulo, que vacilo! A persistência foi grande e por fim o Ratão cedeu. Fiquei no portão da casa dele esperando enquanto o otário, quer dizer, o Ratão buscava o disco que eu nunca mais iria devolver. Catei o LP e nem dei muita idéia, já fui saindo, só queria saber de chegar em casa, fazer novos desenhos e escrever “idéia” no rótulo de novo. Corri na descida da Rua Bamboré pra chegar em casa, em frente a pracinha reparei que a capa estava toda danificada, rasgada, gasta e faltava uns pedaços, mas não tinha problema, o disco estava lá. Se não desse pra eu fazer uns desenhos no pouco espaço que sobrou da capa, o nome no rótulo já seria suficiente. Cheguei em casa, corri pro quarto, já estava com o canetão na mão, tirei o disco de dentro do resto da capa, aquele vinil branco, lindo, saindo do papelão estragado. Apreciei cada milímetro que aparecia até chegar o rótulo onde se via escrito “idéia”!
Foi roubando exatamente o mesmo “Fresh Fruits...” duas vezes que eu desenvolvi a teoria que no Ipiranga só existiram três cópias do Fresh Fruits for Rotting Vegetables!
E, só pra saber: Alguém aí tem o Fresh Fruits pra me emprestar?

terça-feira, 25 de novembro de 2008

HELLO KILL ou O CHINELO PIRATA

Baseado em Fatos Reais



por Edu Zambetti


11 de outubro - 16 horas

Marta só se lembrava do primeiro nome da rua.

- Moço, você conhece alguma Rua Humberto por aqui?

- Vixi dona, daqui até a outra avenida todas as ruas começam com o nome Humberto ou Umberto. Tem alguma outra referência?

- Como é que é moço?

- Dona, ali é a Rua Umberto Eco, a outra é Humberto Elias, a vielinha é Humberto de Alencar...

- Já entendi, entendi...você sabe em qual delas tem uma lojinha de calçados?

- Olha, tem um primo meu que vende uns chinelos importados logo ali naquela barraquinha. Olha lá, aquele de cabelo black. Qualquer coisa meu nome é Josué.

Marta avistou um chinelo rosa da Hello Kitty pendurado na barraca, era tudo o que sua sobrinha precisava e, por coincidência, era o que ela iria comprar naquela loja de adolescente mimada que ficava na Rua Humberto sei lá o que... Iria pagar uns 85 mangos...Estacionou o carro e foi até ao camelô altamente indicado pelo transeunte simpático.

- Pra Madame tem desconto especial... Tem chinelinho e chinelão...

Ele falava e arriscava uns passos de dança.

- Escuta garoto, quanto custa este chinelo rosa aqui?

-Qual? Este da Rélouquil? 15 conto.

Dona Marta nem sabia como iria pagar as prestações de seu carro zero, mas já tinha deixado passar o aniversário da sobrinha e não poderia furar no dia das crianças. Neste caso, um chinelo pirata “com” a Hello Kitty por 15, seria melhor do que um chinelo original “da” Hello Kitty por 85 mangos.

- Tem número 38?

A sobrinha era uma daquelas gordinhas de 13 anos com um pé maior do que deveria e humor em lento desenvolvimento.

- Por acaso só tem este mesmo. Vou confirmar o número pra senhora. Nossa! É 38 mesmo!

- Faz por 10, garoto?

- Por 13, dona. Quer uma sacolinha?


13 de outubro – Antes do Almoço

- Atende a campanhia Cristina. Pare com esta preguiça!

- Tá bom...Pois não?

- Tem alguma coisa pra dar? Um saco de açúcar, uma moeda...Estou até descalço. Olha só.

- Mãe. Vou doar pro mendigo esta porcaria de chinelo que a tia me deu...O que fez ela pensar que eu gostaria de um chinelo da Hello Kitty? Ela poderia me presentear em dinheiro os 85 que custa o original. Ainda por cima é rosa! Sou loira, mas sou gótica mãe...Gótica!

- Moço, tem este chinelo aqui, serve?

O cidadão parado na porta da casa era mais nóia do que mendigo e, rapidamente, calculou que aquele chinelo poderia lhe render uma pedra pelo menos. Isto não ocorreu...

- Deus lhe pague menina, deus lhe pague.


13 de outubro – Hora do Almoço

A morena ficou assustada ao ver aquele mendigo parado e tremendo horrores na sua frente, mas, ilusoriamente, se tranqüilizou quando viu que ele calçava um chinelo rosa bem menor do que seu pé.

- Passa o emepêtreispleier e passa a carteira...tá pensando que é brincadeira? Vai, vai, vai!

Ela, que estava atrasada para o almoço, tirou calmamente da carteira os seus três reais e, sem nenhuma sensação de perda, entregou junto com o Mp3 player para o nóinha da vila... Mas já estava cansada. Denunciaria todo mundo pela internet, pelo 109, para a guarda civil, militar, municipal e até enviaria um e-mail para o presidente. Encheria o saco das autoridades e convenceria todo mundo a fazer o mesmo. De fato, virou mania no bairro e qualquer suspeito que aparecia, mesmo que só pedindo esmolas, era denunciado na mesma hora...Carros de polícia viviam rondando o bairro. Cada dia mais...o delegado que o diga.


16 de outubro – Após o Vidro do Carro ser Quebrado

- Vou fazer igual ao que a mocinha falou. Vou denunciar já! Alô... Quebraram o vidro do meu carro. Levaram todas as compras, uma blusa da minha senhora e meus óculos escuros. Olha, aqui é perto da favela da Malagueta. Isto, perto do cadeião. Olha, estamos cansados disto, fica cheio de marginalzinho passando na rua. Aqui é bairro de gente honesta... Meu endereço? Anota aí.


20 de outubro – Plantão Noturno

- Alencário, chama o Elifas e mais uns dois e vai lá na favela da Malagueta. Quero que vocês prendam alguém! Não agüento mais receber reclamação dos moradores da vizinhança. Olha, prende uns três ou quatro lá e tudo bem. Entre num barraco, dê uns tapas, apreenda alguma coisa! Mas tem que sair no jornal, liga lá pro repórter do Diário, ok?

Os guardas saíram da delegacia com a adrenalina esquentando o corpo, iriam pegar uns pregos de surpresa, seria tranquilo e ainda sairiam no jornal...Mole, mole.

- Elifas, olha aquele barraco, tem um black power dançando lá dentro! Opa, tem umas garotas também... e saca só o baseado rolando lá. Liga pro cara do Diário. Liga lá que nós vamos entrando.

Dentro do barraco estava o camelô Panteronça dançando e sua sobrinha Georgina, de 13 aninhos, assitindo TV...Havia também umas oito garotas largadas e abraçadas ao traficante (procurado) Augusto de Jesus Grelhande: O Grelhão.
Quase 70 kilos de cocaína e várias pedras de crack brilhavam no canto direito da sala além dos vários produtos de origem suspeita, entre eles, chinelos falsificados, principalmente os da Hello Kitty...Os policiais não sabiam destes detalhes.

- Já chegou o repórter! Alencário, entra lá e desce a lenha em todo mundo...

No outro dia, a manchete foi bem clara e direta:

Traficante é Preso com Drogas e Produtos Contrabandeados.

Depois do depoimento, todos, com exceção do traficante e do Panteronça ,morto em confronto, foram liberados sem grandes complicações. Apenas Georgina, menor de idade, seria encaminhada para o conselho tutelar.


21 de outubro – No Cadeião

- Mandei matar!!! Quero todos estes nóias tombados hoje, hoje... Quero pelo menos cinco com a cara no chão e a alma no lixo entenderam?

De dentro da cela saíam os gritos do Grelhão. Dava as ordens como se estivesse na sala de estar de sua casa...

- Vai direto no bar do Fornica. Quero dedo mole, sem dó! Mata todo mundo que estiver lá na frente. Hoje! Aqueles moleques ficam roubando o pessoal dos bairros vizinhos e, de tanta denúncia, tiveram que prender alguém... Eu sei que não foi sua culpa Alencário, o repórter estava lá...Mas desta vez fui eu que rodei...Foi azar, mas não vai ser só meu...Entendeu né? Hoje! Vai sem farda! Não vacila. Na madruga. E liga pro repórter do Diário na seqüência.


22 de outubro – Madrugada do Dia 21 para 22

De dentro de seu barraco, cinco disparos seguidos de mais três foram ouvidos pelo rapaz com insônia e sua mãe.

Horas depois, cinco corpos deram entrada no IML, foram todos assassinados com tiros certeiros na cabeça, entre eles, um garoto chamou atenção de Josué por calçar um chinelo rosa. Antes de preparar os corpos para autópsia, ele tirou cuidadosamente os chinelos da Hello Kitty do cadáver, ensacou discretamente e enviou para a creche de sempre.

Dois dias depois, Georgina, que estava no conselho tutelar mas (por medida de segurança) teve que ser encaminhada para a creche da Vila Malagueta, receberia o chinelo rosa igual ao que seu tio vendia lá na rua Humberto sei lá o que...Seria uma maneira de sempre lembrar dele... do seu cabelo estranho... da sua dança...
Tem chinelinho e chinelão...

Guardou aquele par surrado pelo resto da vida.

JÚLIO E O PARADOXO DO PASSADO



Por ter encontrado e se casado com Marília, Júlio se considerava um cara de sorte.
Ele: um simples segurança, bruto e rústico. Ela: professora de crianças, mulher bonita e inteligente. Mas a frase feita existe para ser usada: os opostos se atraem.

Era segunda feira, Júlio olhava Marília servindo a comida e lembrava-se da dura batalha para conquistá-la. Mais de um ano de gracejos, bombons e flores. Na época ela acabara de chegar da capital, lugar do qual não gostava nem de ouvir o nome:
-Detesto aquele lugar, detesto.
-Por que?
-Não interessa. Júlio, eu tenho um passado e se quiser ficar comigo tem que aceitar ele morto e enterrado.

Então que fosse, Júlio se condicionou a não se importar. O passado era tempo gasto e inútil. O presente era trabalho e o futuro deveria ser construído agora. O que importava realmente era no que as pessoas tinham se tornado e o passado – ferramenta que participou dessa construção- deveria ficar guardada em gavetas invioláveis. Aliás ele também tinha seu passado de pequenos delitos quando menino pobre e depois teve o tempo como segurança de boate.

Como sabemos, Balneário Fantasma era um lugar onde a consciência de classe se aprendia desde a educação infantil. E isso provocava situações no mínimo, dignas de análise. Uma dessas situações ocorreu quando as indústrias eletroeletrônicas quiseram modernizar os formatos midiáticos. A substituição de LPs por CDs foi difícil. E a de fitas VHS por DVDs nunca ocorreu a contento. Uma campanha que começou nos jornais e terminou na câmara dos vereadores baniu os DVDs como “estratégia capitalista de transformação mercadológica da arte em produto”. Assim, Balneário Fantasma até hoje utiliza os lendários videocassetes. Todos os dias caminhões chegam com suas caçambas abarrotadas das obsoletas fitas de VHS provindas de várias cidades do país. Essas fitas são disputadas avidamente pelos vendedores que as revendem em pequenas bancas no centro. Há também o fenômeno e o mercado de DVDs novos que são convertidos em VHS. Coisas de Balneário Fantasma.

A única mácula na pretensa honestidade de Júlio tinha a ver com isso.

Desde criança e durante a adolescência Júlio consumia regularmente pornografia. Era seu vício. Se antes ele escondia revistas mofadas e coladas embaixo do colchão, hoje ele colecionava fitas VHS pornográficas.

Comprava essas fitas ao menos uma vez por semana e as trancava no guarda-roupa, junto com suas ferramentas de trabalho “tem que manter trancado Marília, senão o Júnior pode pegar minhas armas e já viu”.
Para assistir as fitas Júlio desenvolveu uma técnica astuta. Como ainda não havia “tirado” o ensino médio prestava provas do governo todo final do ano para eliminar matérias. Deixava então exposta uma pequena coleção de fitas de “tele-curso” como pretexto para poder se trancar no quarto e exercer seu pequeno vício sem que fosse incomodado: “Estou estudando, preciso de concentração”.

Quem julga Júlio por este pequeno vício tem uma perspectiva simplória da história. Ele tinha consciência que essas fitas eram em parte responsáveis pela sua fidelidade à Marília e pela longevidade de seu casamento que iria completar 12 anos no próximo dia 20. Júlio utilizava um mecanismo de projeção mental e transferia o que assistia nas fitas para seus momentos de maior intimidade e isso mantinha acesa a “chama do amor”.

É claro que Marília desconfiava de seus momentos trancados no quarto, mas afinal, sabia que Júlio era um homem bom e principalmente: nunca questionara sobre seu passado.

Na terça feira ao voltar do trabalho (como de costume) Júlio parou em frente à banquinha de VHS do seu fornecedor de confiança:
-E aí David! Como estamos hoje? Alguma novidade?
-Tem sim patrão, tem uma que você vai gostar. Converti para fitinha uma raridade do cinema nacional... deixa ver...
E assim Júlio levou consigo a fita “Loucuras tropicais do Brasil volume 7”.

Chegou em casa, beijou a mulher, olhou o menino fazendo a lição e foi direto para o quarto.
-Marília, vou estudar! Peguei uma fita de matemática, você sabe que eu tenho uma dificuldade lascada com os números!
-Tá Júlio, ainda vou colocar o arroz no fogo...

Júlio adentrou o quarto e eufórico fechou a porta.
Tirou a fita da mochila e colocou no vídeo-cassete.

A fita começou com uma trama óbvia. Uma festa universitária que descambava para a orgia.
A princípio não reparou, não quis reparar. Mas algo lhe incomodava naquela fita, um olhar de uma personagem ao fundo das cenas, com um drinque na mão.
O incômodo passou a fazer sentido. Aquele olhar... Era Marília, sem dúvida! Mais jovem e loira, mas era Marília. Ficou tenso. Pensou em tirar a fita e pisar em cima. Mas será... Talvez ela fosse somente uma coadjuvante do filme. Não era.
E a festa universitária seguiu seu rumo com a participação ativa de Marília em poses, posses e tudo que seu cachê permitira. E era tudo o que o inconsciente de Júlio mais temia ver.

A fita acabou. Júlio ficou olhando pela janela do apartamento. Era um por do sol bonito. “Então era esse era o tal segredo de Marília...”
Ejetou a fita do vídeo-cassete. Abriu o armário e colocou ao lado do revólver. Olhou para cada um dos objetos poderosos como se estivessem cada um em prato de uma balança.
Não sabia qual dos dois escolher.

-Vem Júlio, a janta está servida, vai esfriar! Marília batia na porta.
Aquela janta foi dotada de um silêncio constrangedor rompido regularmente pelos incômodos barulhos dos talheres na porcelana dos pratos.
-Tudo bem Júlio?
-Problemas no trabalho - justificou cabisbaixo.

O silêncio acompanhou-os até o quarto. Mais tarde na cama uma cena da novela fez com que Júlio e Marília cruzassem seus olhares. Um beijo e o apetite sexual (temporariamente contido) de Júlio voltava à tona. O ato em si foi memorável para aquele casamento já desgastado. As cenas da festa universitária se repetiam com uma tortura na mente de Júlio que em contrapartida possuía sua esposa com um sentimento de não pertencimento que lhe era extremamente prazeroso.

Nesse dia Júlio aprendeu forçosamente a rimar (como na mais vulgar das músicas bregas) as palavras antíteses dor e amor.
Na quarta feira Júlio se desfez de toda sua coleção de fitas VHS pornôs e creiam: nunca mais precisou delas.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

COINCIDÊNCIA OU NÃO!

Inicia-se hoje a seguinte Semana Temática: Coincidência OU Não?
A cada dia um dos colaboradores do zinismo irá ”zinar” sobre esse assunto, então aqui vou eu:

Coincidência OU Não?

Parte 1: Sábado uma triste "coincidência” aconteceu com parentes meio próximos da minha família, uma vida deixou nosso querido mundo. Foi numa cidade que não tem nem shopping, nem supermercado e Banco do Brasil, mas tem uma esquina, e lá dois carros se chocaram e uma jovem de 26 anos se foi. Viver aqui na Terra e colidir em uma esquina com apenas 26 anos, em uma cidade onde nem existe farol, guarda, faixas, é mera coincidência? Dois carros estavam no mesmo ponto e na mesma hora por coisa do destino? Coincidência OU Não?

Parte 2: Tirei meus dois dentes do siso na sexta-feira passada, e com a agonia pulsante na boca que me perseguiu pelo final de semana inteiro, parei para refletir sobre dor. Como deve ser a sensação mais forte do que a dor de pedra no rim (que já me pegou mais de três vezes)? Como a extração dos dentes, como aquela asma que eu tinha com 13 anos? A dor seria uma coincidência, ou foi criada com propósito? Ela é muito útil, pois serve de alerta para algum tilt no nosso corpo. Por que eu tive pedra no rim, asma e dente torto e você não? Coincidência OU Não?

Parte 3: Deixando a religião de lado, mas a ciência também... É difícil entender por quê existe um milionário com câncer no cú e um favelado de 80 anos jogando futebol. Por que Ronaldinho virou fenômeno e não um cobrador de busão? A mulher melancia é mera coincidência? Dificil... Destino!

Conclusão: Minha humilde opinião não acredita na coincidência das coisas, mas sim no destino. Naquele destino programado por um cara maior e com mais poder que Silvio Santos. Se nada tivesse rumo, também não faria sentido algum estar aqui.

Me desculpe não ter tempo pra ir mais afundo no assunto, mas não ando muito bem. Como viram no texto, estou um tanto down/emo/gótico/tristonho/doloridinho, mas tentei colocar o Silvio Santos aí no final, com a mesma intenção que ele aparece pra gente na TV no final de cada semana difícil.

Até a próxima pessoal e boa semana temática aqui no Ziniiissmooo.

Felipe Eterno

Desenho que fiz pensando em você:

domingo, 23 de novembro de 2008

SOBRE A COINCIDÊNCIA...

Coincidência:
Tem gente que chama de afinidade, outros de aplicação da lei do karma, destino, fortuna...

De qualquer forma não é a primeira vez que assisto a uma propaganda na televisão e a trilha sonora me lembra outra música com características semelhantes.

Nesse caso outras palavras podem ser aplicadas: influência inconsciente, grande sacada, economia de verbas...

Assista aos videos e comece a pensar a respeito.