quinta-feira, 2 de abril de 2009

RATOEIRA



Por Marcelo Viegas

É paixão antiga. Desde 1992. Dezesseis longos anos, mas lembro como se fosse ontem.

Era uma sexta-feira à noite qualquer, monótona e que, como várias outras, poderia cair no esquecimento total. Não fosse pelo que viria logo a seguir... Zapeando com o controle remoto, na sala da casa dos meus pais, parei ao acaso na Rede Bandeirantes, que exibia imagens de um show de rock. Não conhecia a banda em questão, e esperei começar a música seguinte (“motown junkie”), para descobrir que tratava-se de um tal de Manic Street Preachers. “Ok, legal”, pensei, “mas nada demais”. Concluí então e mantenho-me firme nessa avaliação até hoje.

O que importava mesmo só viria depois do intervalo. E foi também no intervalo que descobri que o show era na verdade um festival, chamado Reading Festival. Reading Festival 92. “Salvou a sexta”, imaginei, sem saber que, três minutos depois, eu ganharia uma das grandes paixões musicais da minha vida.

Peguei algo para beber na geladeira, apaguei a luz da sala e deitei no sofá surrado. Talvez no meio do caminho tenha feito um carinho na Régia, minha falecida cachorra. O show recomeçou. Uma banda anunciou uma música, com forte sotaque inglês. O cabelo comprido, a roupa cafona e o jeito meio blazé do vocalista não despertaram, a princípio, muita expectativa. Mas quando a música começou... Afe Maria! Um coro interminável (é assim que me lembro) de “ooohs” bem suaves contrastava com guitarras fortes, distorcidas, maravilhosas. Chapei de cara.

Esperei pela próxima música. E não me arrependi. Tinha uma melodia linda, que só começava com mais de um minuto de um instrumental delicioso, daqueles que enchem nossos corações de bons sentimentos. Eu, adolescente e inexperiente, ainda não tinha vivido uma grande paixão na vida. Mesmo assim, aquela música me fazia sentir saudades de algo que não conhecia. Alguém já sentiu isso? Ou lembra-se de sentir isso?

Sonhando acordado, inebriado pela boa música, já estava vencido e convencido na terceira canção, que veio rasgando, com os quatro músicos começando juntos. Era forte, rápida e certeira. O vento da noite balançava o cabelo do vocalista, que tocava olhando para o chão, com uma pseudo-timidez que não combinava com a potência daquelas músicas. Tão belas. Anotava tudo num papel, para não esquecer o nome da banda, dos sons... Numa época pré-Internet, a informação era sempre difícil e valiosa. Não queria correr riscos de não me lembrar no dia seguinte.

Já estava satisfeito e feliz, quando veio a última música da edição da Band. Uma muralha de guitarras, coros mais uma vez intermináveis e uma linha de voz que demorava a começar... Mas quando começou, fudeu! Que melodia era aquela? Naquele momento eu soube: nunca mais esqueceria dessa melodia. Ela iria me acompanhar - como uma das minhas favoritas – para sempre. Eu tinha certeza disso. Eu havia caído numa ratoeira, não havia escapatória! Foi um daqueles raros momentos em que você descobre uma razão a mais para viver, uma razão a mais para sorrir. Dormi feliz aquela sexta-feira.

O nome da banda era Ride. As quatro músicas da edição esquartejada da Band eram “taste”, “sennen”, “like a daydream” e “mouse trap”, a arrasadora e inesquecível “mouse trap”.

Não imaginava naquela época que um dia escreveria sobre rock. Já gostava muito, já tinha banda, mas não fazia idéia de que um dia isso viraria ofício. Momentos como esse – e bandas como o Ride – são a razão sine qua non do nascimento do meu primeiro zine, dos meus primeiros textos (toscos, mas cheios de verdade) e, em certa medida, do que sou hoje.

Alguns anos depois dessa sexta-feira em 1992, numa liquidação de uma locadora de CD´s que estava prestes a fechar as portas, eu comprei meu “going blank again”, no qual está “mouse trap”. Anos mais tarde, na Galeria do Rock, encontrei um VHS daquela edição do Reading Festival, com a mesmíssima seleção de apenas quatro músicas da Band (o show na íntegra teve 12 músicas).

E dias atrás, para fechar a saga, o Idéia me passou (via msn) o link para baixar o show do Ride naquele memorável Reading de 92. Não sei ao certo, mas tenho impressão que tal link tem o dedo do AZ. Tô certo, Idéia?

Obrigado Idéia, obrigado AZ e, principalmente, obrigado Ride!





[texto originalmente postado no fotolog /o_livro, em fevereiro de 2008]

9 comentários:

  1. só vou dizer uma coisa.
    também quero o link!!!

    E logo mais é inverno, é preciso ter Ride no IPOD pros dias mais cinzentos!

    Abraços

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  2. o Link tem muito mais de um ano, como vc pode perceber, vou ver se tá on ainda e te passo, senão vc vai ter que esperar eu upar de novo!

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  3. e agora respondendo o post:

    [postado originalmente em fotolog.com/defixa - fevereiro 2008]

    Pois é!

    Eu me rendo, e pra fechar o ciclo, e a conexão Piracicaba/Franca/São Bernardo, aí vai algumas lembranças de uma época Baggie, Shoegazer e muito,mas muito psicodélica na minha vida!!!
    Os anos 90 ainda estavam começando. Eu era só um adolescente chato, querendo bancar o fodão no rock pra entrar de graça em shows e casas noturnas e comer alguma garota! Logo conheci uma galera descolada, que fazia parte de uma das mais descoladas bandas dessa época, uma galera que comprava e me dava o Melody Maker TODA SEMANA.
    Ali descobri, ainda antes da explosão grunge, uma outra explosão, apelidada de Madchester, que tb era o início da cena Rave na Inglaterra e tinha como representantes bandas como Jesus Jones, E.M.F. , The Real People, Chapterhouse, Ride, Inspiral Carpets, The Charlatans UK, Blur, os "magnificamente drogados" Happy Mondays, etc, etc, etc... Uma galera que vinha do chamado Shoegazer, só que menos My Bloody Valantine, uma coisa mais feliz e já com requintes de música eletrônica.
    Um dia uma pessoa dessa galera me gravou um disco chamado Nowhere do Ride. Quando eu escutei Vapour Trail pela primeira vez, sabia que nunca mais esqueceria aquela canção, muito menos o tal do Ride.
    Beleza, nessa veio o tal do Nirvana e fodeu a porra toda, e eu já tinha vendido minha alma ao rock´n´roll definitivamente. Sem grana pra comprar Melody Maker toda semana, o jeito foi assinar a revista Bizz, onde assim como hj, os caras da revista eram quem compravam o Melody Maker, além do NME, Mojo, etc, etc, etc... e depois escreviam o que eles liam ali como se fossem os donos da cocada preta, anyway, fuck it! Mas me lembro bem de uma matéria falando sobre o Reading Festival de 1.992. O Barsinski quem escreveu, e na boa, era um puta texto. Parecia que eu estava lá, pegando carona com o Alan Joursen do Ministry e tudo mais!
    A escalação do festival (conforme a tradição) tinha tudo de mais foda no rock naqueles tempos, logo estavam reunidas por lá bandas das duas grandes cenas já citadas, os grunges e os madchester´s. Só pra citar algumas, Ministry, E.M.F, Jesus Jones, PJ Harvey, Mudhoney, Teenag Fanclub, Manic Street Preachers, Rollins Band, Jesus and Mary Chain, L7, Babes in Toyland, etc, etc, e claro Nirvana. Aliás, esse show o Nirvana é lendário para os verdadeiros fãs da banda!!!
    Como eu queria ver como foi aquilo!!! E não é que de repente, assim do nada, a Tv Bandeirantes passou alguns shows do Reading de 92 (mais tarde reapresentados no Multishow). E entre esses shows, a Band mostrou o show do Ride! Ok, apenas um terço do show inteiro, mas alguém consegue imaginar o que foi ver o Ride na Band em 92???
    Ride!!! na Band!!!
    Hoje a gente vê vídeos de shows de bandas algumas horas depois que eles terminam, é só procurar bem nos youtobas da vida! Mas em 92 a parada era beeeeeem diferente e ver o Ride alí foi inesquecível!!!
    Uma coisa que eu sempre quis foi ter esse show intero, mas daqui a pouco eu falo disso!
    Há algumas semanas atrás o Viegas postou a seguinte frase no flog dele (/satan_sapuak):
    “tive uma visão: quero fundir ride com nebula. será que dá jogo? se algum filho da puta me copiar, eu passo fogo!”

    Tal frase foi o suficiente pra que nós do ästerdon levássemos isso meio que a sério e assim eu e o Viegas começamos a catequizar o Punkinho em relação ao Ride!!!
    Vários e-mails foram trocados com links para baixar toda a discografia da banda, opiniões sobre os melhores discos, as melhores músicas, etc.
    Sabe Deus porque, mas acabei comentando isso com o AZ, outro fã “die hard” de Ride, na última quinta feira. Ele ficou louco com a parada e me solta essa:
    “vou ter que gravar uns live do Ride pra ele. depois de anos eu consegui o show de Reading 92 – Quando rola Nowhere no final do show, meu amigo... - Vou colocar no rapishare pra vc baixar”
    Minutos depois eu tinha finalmente o show do Ride inteiro no Reading Festival de 92!!! Aquele que eu ví pela Band!!! Na mesma hora passei o link pro Punkinho e pro Viegas.
    Resultado da brincadeira, esse foi o Carnaval mais Shoegazer, Madchester, Rave On desde o Reading festival de 92!
    Tá duvidando, saca só:

    Viegas: http://www.fotolog.com/o_livro/13717975
    AZ: http://www.fotolog.com/rock_shots/24711670
    mais o post de ontem aqui mesmo!!!
    Afff!!!


    hehehe!!! pra continuar a brincadeira Viegas, vou dar um salve pro AZ fazer o mesmo!

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  4. desculpa o post dentro do post, mas se é pra ser revival, tem que ser com formação original e todos os hits, right?

    Falei pro AZ repostar o dele tb!

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  5. olha, esse texto do Viegas me fez ficar todo arrepiado à época. hoje não foi diferente.
    pra continuar a brincadeira, coloco aqui a resposta pro posto do Viegas:

    "sabe o que é foda? é perceber, 15 anos depois, o quanto esse Reading 92 é importante pra tanta gente. importante pra nossa geração, que está entre os vinte-e-tantos e os trinta-e-poucos.
    acho que a gente já conversou sobre isso antes, mas vc e o Idéia não são os primeiros a me falar dessa bendita edição televisionada do festival. algumas pessoas, não muitas, já me disseram o quanto aquilo foi fundamental pras suas vidas.
    eu engrosso o coro. além de Ride - que desde então integra meu "Olimpo Rock" pessoal - conheci muitas outras coisas ali, e acho que foi assim com todos. chapei GRANDE com PJ Harvey, Pavement (aquela sim, outra revelação), Smashing Pumpkins, Teenage Fanclub e Rollins Band e Mudhoney (que eu já tinha em disco, mas não imaginava a parada ao vivo) e, sobretudo, com os Charlatans UK tocando "Weirdo". enfim... até o Bjorn Again foi foda.
    só sei que o festival foi da Band pra uma VHS. e depois pra uma fitinha Vat C-60, pra ouvir no walkmen, na sala de aula.
    enfim.... o que até hoje ninguém consegue entender pq a Bandeirantes resolveu colocar no ar. eu queria dar um abraço sincero no cara que teve essa iniciativa. agradecê-lo. principalmente pq só me resguardei de um noite de pinga Ypióca com meus amigos bêbados, adolescentes e interioranos que não sabiam nada de rock, pois fiquei sabendo que a Band iria "passar um show do Nirvana num festival inglês".
    salvou as nossas vidas, né? salvou sim. abraço, mestre."

    ...

    agora vou atrás desse arquivo pra re-postar no Rapidshare. abraço!

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  6. Idéia, tô relendo o que vc escreveu aqui... esse monte de bandas. é um tratado sobre o que importa no rock dos anos 90.
    é uma pena que o madchester tenha desaparecido tão rápido como surgiu. por uma boa causa, claro, já que o grunge pedia passagem. e na boa, sem o grunge seríamos bem menos felizes.

    pode ser saudosismo adolescente - e deve ser - mas diz aí: os anos 90 não foram o máximo?!

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  7. achei um link vivo pro registro:
    http://rapidshare.com/files/203108325/Box_Set_CD3-Ride-Live-Reading_Festival_1992-256Kvbr.zip

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  8. Marcelo, eu também fui um dos abençoados que assistiu isso... Se não me engano a Band passou os melhores momentos do Reading 1992 por uns 3 dias seguidos. Acho que até hoje ninguém sabe porque cargas d'agua a Band (graças à Deus) transmitiu isso, tendo em vista que a coisa mais "indie" que já tinha passado por lá foi o Raul Seixas cantando bêbado no programa do Bolinha.

    Concordo plenamente com o comentário do AZ ao destacar a importância deste Reading. Na época havia poucas fontes de informação sobre este tipo de som. Portanto um Reading com a seda fina do rock alternativo, transmitido pela Band (pasmem!!), alegrou muita gente.

    O Ride ao vivo dispensa comentários, mas o show do Teenage Fanclub não ficou por menos. Lembro da molecada toda suja de lama pulando ao som de "everything flows". Momento inesquecível para quem está com 38.


    Valeu!

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