"Zinismo é um blog coletivo, autoral e independente formado por uma confraria de fanzineiros separados pela distância física e aproximados pela era digital."
O zinista Flávio Grão pode ser considerado um dos zineiros mais audaciosos da atualidade. Como se não bastasse lançar um zine como todo ser normal (ou com as faculdades mentais pouco danificadas), resolveu fazer uma versão em formato de livro.
E justiça seja feita: o trabalho e dedicação que teve para produzir essa história justifica cada centavo gasto nesse grande empreendimento. Afinal, é difícil descrever a grandiosidade dessa obra e o marco que representa dentro das publicações independentes. Grão, com seu traço grosso e que remete à xilogravura, conta uma história sem usar uma única palavra, ou mesmo algum quadro, apenas conduzindo o leito por meio de ilustrações sequenciais que o conduz por um mundo imaginário (ou não). Ao mesmo tempo que o leitor (ou observador) tenta decifrar as mensagens subliminares, é conduzido à reflexão do mundo e de si. O caos conduz todo esse universo em plena ebulição. Endoapocalipse é o terceiro número da série Manufatura. Todas as demais histórias seguem no mesmo estilo poético-filosófico, sem textos, balões e quadros, tornando essa a fase mais marcante e intrigante na obra de Flávio Grão. Esse mais recente lançamento ganhou até um vídeo clipe:
Por ser uma obra ímpar, esse material merecia uma análise profunda e, em um e-mail para o autor, o Doutor em Educação, zineiro, ilustrador e sábio Elydio dos Santos Neto fez um raio-x da publicação, a qual autorizou para postarmos aqui no Zinismo. O estudo feito por Elydio se divide em duas partes: uma em que deu uma olhada despreocupada, sem se aprofundar em detalhes; e outra já fazendo uma análise mais cirúrgica. Atenção: o texto abaixo contém SPOILER! Caso prefira decifrar Endoapocalipse de sua forma, sem influências, recomendo que leia a produção de Elydio depois de tirar suas próprias conclusões...
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Minha sequência de leitura/visualização, a partir da qual, escrevo meus comentários, foi feita da seguinte maneira:
1. Ocupei tempo em decifrar, para mim, o que significa a expressão Endoapocalipse;
2. Fiz uma primeira leitura, sem maiores preocupações, mas já influenciado pela
minha compreensão de Endoapocalipse;
3. Li seu processo de produção da obra;
4. Fiz a minha segunda leitura, agora com suas informações.
O significado de endoapocalipse para mim, Elydio
O prefixo grego ENDO significa para dentro, interno. De meu pouco conhecimento
sobre a Bioenergética sei que tudo o que é ENDO está relacionado aos nossos
tubos internos, da boca até o ânus, e tem a ver com o mundo das nossas emoções
e como lidamos com elas. Segundo esta corrente de psicoterapia também o formato
de nossos corpos é definido a partir de como lidamos com o nosso mundo ENDO.
APOCALIPSE é caos, guerra, morte, transformação, fim de um tempo, passagem,
mudança.
Assim o Endoapocalipse começou a se desenhar para mim como uma narrativa de
conflitos apocalípticos motivados pelo desequilíbrio do mundo interno, de modo
especial do mundo relativo às emoções.
A primeira leitura de ENDOAPOCALIPSE, rápida e sem maiores preocupações
Chamou-me a atenção o fato da narrativa começar com uma criança, assim
interpretei, lendo um livro. Fanáticos aproximam-se. Há luta pelo poder e para
destronar o poder assumido. Na luta percebe-se que há o grupo dos “mascarados
de madeira” e o grupo daqueles que não se desumanizaram. Há morte,
transformação e libertação, mas volta-se às crianças consumindo uma fruta de
madeira que pode ser o recomeço de novo ciclo de desumanização.
Minha observação sobre seu processo de produção desta narrativa
Gostei demais de ter lido a narrativa da produção. É muito interessante ver
como a obra foi sendo construída: o primeiro passo, as intuições, as dúvidas,
as possibilidades, as tentativas, as insatisfações, os rabiscos, as escolhas,
os cortes, a influência da linguagem dos quadrinhos, o aspecto fanzineiro em
diálogo com o livro-arte, a aproximação à outra linguagem artística. Muito
legal.
A leitura do processo de produção também me confirmou a interpretação que eu
vinha fazendo sobre as máscaras de madeira. Inicialmente não tinha bem certeza
se era isso, embora houvesse muitas evidências que me encaminhassem para esta
leitura. As explicações sobre as torres, o barril de madeira e as máscaras
foram fundamentais para mim.
Embora sua narrativa não seja, a rigor, uma história em quadrinhos, eu a li
como uma narrativa de história em quadrinhos na qual o requadro se identifica
com cada página-suporte, embora não haja textos, nem balões, nem recordatórios.
Cada página é, para mim, um grande requadro.
Minha segunda leitura, após a leitura de seu processo de produção
Quadro 1
– Um menino lê, encostado numa pedra, sob uma árvore, um livro que ensina algo
sobre máscaras de madeiras. Talvez ensine sobre como ser um mascarado. Uma
tempestade se aproxima no horizonte.
Quadro 2 – A tempestade traz algo que é ameaçador, embora não seja claro
exatamente o que é.
Quadro 3 – Aproximam-se seres portando sobre suas cabeças torres de poder.
Estão como numa marcha ou numa procissão. Empunham estandartes. É uma caminhada
de afirmação de poder. Lembrou-me muito a conservadora TFP (Tradição, Família e
Propriedade). Quadro 4 – Do quarto um ser humano observa. Ele está deitado. Parece não ter
força nos membros do corpo.
Quadro 5 – Esse alguém no quarto é diferente. Sua cabeça tem a ver com a
madeira, com a árvore, com um transformação interna na qual sua humanidade vai
sendo esquecida.
Quadro 6 – O processo se completa. O ser agora é um “cabeça de madeira”. No
chão vêm-se muitas máscaras de madeiras amontoadas, o que parece um sinal de
que o processo de transformação em cabeça de madeira é um processo social que
envolve muitos e que se perde no tempo.
Quadro 6 – O processo se completa. O ser agora é um “cabeça de madeira”. No
chão vêm-se muitas máscaras de madeiras amontoadas, o que parece um sinal de
que o processo de transformação em cabeça de madeira é um processo social que
envolve muitos e que se perde no tempo.
Quadro 7
– Mostra o “processo educativo madeirante”, isto é, o processo educativo
segundo o qual na convivência com adultos cabeças de madeira, as crianças
também vão se transformando em cabeças de madeira. Esta imagem me lembra muito
do conto de Rubem Alves: “Pinóquio às avessas”.
Quadro 8 – Mostra uma mulher cabeça de madeira. É um feminino que está tão
preocupado com seus aspectos externos (maquiagem, compras, roupas...) que
esqueceu seu aspecto ENDO e acabou se desumanizando. À sua volta as coisas
pegam fogo, mas ela não percebe.
Quadro 9 – Um ser, cabeça-de-torre-de-madeira, mostra seu poder e está
liderando uma massa de cabeças de madeira. Eles puxam “cordas” que estão
ligadas ao céu. A sensação que se tem é que puxar as cordas do céu daquela
maneira, como se fossem abri-lo, é uma atividade que dá muito poder.
Quadro 10 – Aparecem muitos cabeças de madeira puxando cordas do céu como para
romper certa ordem e introduzir o caos.
Quadro 11 – A partir deste quadro o caos apocalíptico, doENDO, começa a
aparecer com maior clareza. Aqui, por exemplo, um soldado cabeça de madeira
carrega uma enorme bomba, com certeza para se detonada e introduzir destruição
no céu rompido por meio da GUERRA.
Quadro 12
– Outro ser, também cabeça de madeira, foge com alimentos para introduzir a
FOME.
Quadro 13 – Cabeça de madeira, ferido e sangrando, assim mesmo despeja balas
para matar num sinal de que a GUERRA produz DOENÇAS MORTAIS que se espalham tal
qual peste.
Quadro 14 – Uma verdadeira besta do Endoapocalipse, num cavalo-coisa, é a
própria personificação da MORTE a espalhar a idolatria do dinheiro dos máscaras
de madeira. As notas como que se colam nas mãos dos cabeças de madeiras,
esquecidos de si mesmos e de sua humanidade.
Quadro 15 – Este quadro mostra que ainda há humanos que não se madeirificaram,
não se desumanizaram. Eles se reúnem, guiados por um líder, sob o céu rompido.
Quadro 16 – Os humanos se rebelam, transgridem, fogem de seus esconderijos. Agem
e atacam os cabeça de madeira.
Quadro 17 – Na medida em que as máscaras de madeira vão sendo destruídas
percebe-se que seus “moradores” são seres humanos. Eles estão esquecidos de que
são seres humanos, mas o são.
Quadro 18 – Um dos cabeças de madeira cai na água do que parece ser um rio. É o
rio das próprias emoções que tiram a máscara de madeira e, paradoxalmente, a
transformam num bote salva-vidas, sinal de que a máscara, quando vivida sem
reprimir o ENDO e sem negar o humano, pode ajudar o ser humano a lidar com a
relação entre o “ENDO interno” e as exigências exteriores da sociedade.
Quadro 19 – No entanto, outros máscaras de madeira vão se enrolando e se
perdendo no emaranhado dos fios/cordas que estavam puxando dos céus.
Quadro 20 – Muitos cabeças de madeira são presos e conduzidos, em grupos e
algemados, para um lugar onde se dará alguma transformação.
Quadro 21 – Os cabeças de madeira presos passam pelo processo de transformação
da morte e suas energias retornam aos céus.
Quadro 22 – Os “humanos vencedores” costuram o céu para restaurar a ordem do
caminho humano e para impedir contato com a energia dos cabeças de madeira que
foi recolhida nos céus. Paz, ao menos temporariamente...
Quadro 23 – ...Porque nova borrasca se aproxima.
Quadro 24 – A borrasca aumenta e aumenta...
Quadro 25 – Crianças, no meio da borrasca, vão apanhar um fruto, das árvores
ali fincadas, para comer...
Quadro 26 – Surpresa! O fruto tem a semente dos cabeças de madeira... O
processo madeirizante/desumanizador pode recomeçar, ameaçando romper novamente
os céus, se os humanos não estiverem atentos, de modo especial, em seus meninos
e meninas.
Minha interpretação “final” de Endoapocalipse
Num trabalho artístico de excelente qualidade você faz, Flávio, um grito de
alerta à nossa humanidade presente: Se sucumbirmos diante das exigências do
mundo externo-social, simplesmente reproduzindo o que a sociedade deseja de nós
e esquecendo de cuidar de nosso mundo interior (ENDO), então estaremos
constituindo um processo desumanizador que pode terminar em manipulação,
negação do si mesmo e infelicidade.
Para Jung a máscara deveria ser um instrumento de proteção à exposição de nossa
psique, mas ela pode ser altamente danosa quando o sujeito se confunde com a
própria máscara. As máscaras não somos nós por inteiro e nós não somos as
nossas máscaras quando nos percebemos inteiros. Portanto, máscara pode ser
desumanizante. Máscara que impõe sermos o que o outro (a sociedade dominante)
deseja que sejamos estabelece um putrefato processo de necrofilia.
As máscaras, porém, de acordo com você não precisam necessariamente serem
vencedoras. Há esperança de transgressão dos humanos ainda não cooptados pelo
DESEJAR dos outros. Mas esta esperança há que ser sempre atenta e estar sempre
vigilante, pois os frutos dos cabeça de máscaras permanecem mesmo quando eles
já foram transformados.
O trabalho do ilustrador, artista plástico, educador e zinista Flávio Grão está quase que onipresente nos fanzines lançados nos últimos anos. Seus traços fortes, rústicos (quase se assemelhando a xilogravuras) viajam em um roteiro filosófico-poético, sempre passeando pelo inconsciente individual e coletivo.
Recentemente lançou duas edições do fanzine Manufatura, nas quais conta histórias sem utilizar textos: apenas o apelo visual com um pé no surrealismo, que transmitem muita informação. Mas, para isso, é necessária a observação atenciosa do leitor. Não basta apenas folhear, tem que explorar cada ilustração para entrar no universo do autor. Que, depois percebemos que também é o nosso universo.
Cortex traz a mesma proposta, porém de uma forma diferente: o autor se enveredou no universo da colagem para contar a história de um personagem que se assemelha com um cérebro, tendo como cenários imagens clássicas de cidades e de situações.
A prática de recortar e colar é algo fácil. Nem tanto. Saber harmonizar uma imagem sobreposta sobre outra e ainda ter o objetivo de contar uma história sequencial é para poucos. Grão começou Cortex em 2008 e finalizou na segunda metade de 2011. E o tempo talvez tenha sido fundamental para as ideias fluírem para alcançarem o resultado final.
Algo que é marca nos últimos trabalhos de Flávio Grão, é a experimentação em cima de papéis de gramaturas e texturas diferentes. Nesselançamento utiliza de papel vegetal para sobrepor a capa de colorset e o miolo de vergé. Mostrando, inconsciente ou não, que o fanzine impresso para ser atrativo e necessário, necessita ter um apelo muito além que textos e desenhos: precisa ter um “valor” de tato e visual, que já é tendência na Europa e Estados Unidos e que acredito ser o futuro dos zines impressos por aqui.
Cortex não é algo simples de se adentrar. Talvez facilite nas referências bibliográficas que cita ao final da publicação: o artista plástico surrealista alemão Max Ernst, o psicólogo bielo-russo Lev Vygotsky e o pintor e cineasta da pop art estadunidense Andrew Warhola. Você não entendeu ou não faz ideia de quem se trata? Dá uma pesquisada rapidinha e depois volte aqui nesse ponto.
Pronto. Agora é possível entender onde mais ou menos queremos chegar.
A história de Grão começa com uma simples dor de cabeça. Essa dor toma conta do paciente que consegue enxergá-la através do espelho. Aos poucos, esse diagnóstico começa a tomar dimensões gigantescas e até inacreditáveis. É o absurdo se mesclando com o real. O caos individual transformando-se no pop coletivo, sem percepção do monstro que foi criado. A desgraça em larga escala de produção. Quem sabe, com essa intenção, no verso de cada obra, o autor sugere um cartão postal, para conversar conceitualmente com a história.
O nome do zine sugere o termo “vortex”, que pode ser definido como movimentos espirais ao redor de um centro de rotação. Com isso, tudo que envolve essa publicação tem um porquê e uma razão de ser. Nada é gratuito.
Grão surpreende mais uma vez, fugindo do lugar-comum, das teorias absurdas, do egocentrismo, para que, de uma forma inteligente, denunciar e clarear a realidade consumista que está aí na nossa frente e que não temos olhos para enxergar. Ou não queremos.
MAIS GRÃO
Como se não bastasse ser "fugurinha carimbada" no mundo dos fanzines, Grão está se enveredando no universo dos livros. Recentemente foi convidado pela Ugra Press para ilustrar o primeiro livro de contos de Leandro Márcio Ramos, o Tudo que é grande se constrói sobre mágoa.
A publicação foi feita de forma totalmente manual, com uma montagem peculiar, feita uma a uma. Acompanhe aqui todo o processo de produção.
LANÇAMENTOS
O Cortex, e o Tudo que é grande se constrói sobre mágoa serão lançados no próximo sábado, 10 de dezembro, no Hotel Tee's, em São Paulo, conforme exibe o cartaz abaixo. Na oportunidade, Grão também lançará um pôster e uma camiseta de tiragem limitada com suas ilustrações.
Membro fundador desse blog/zine, o multimidiático Flávio Grão fala um pouco sobre a cultura do fanzinato, artes plásticas, skate, hardcore, a cena paulistana e seu Zine Manufatura em entrevista ao comparsa Ricardo Tibixxx no site Vista.art.br.
Bora dar um confere na parada, e entrar em sintonia com o Mestre! OHMMMM!!!
O Zinista Flávio Grão após quase dez anos sem lançar um fanzine de papel resolveu produzir e distribuir uma compilação de ilustrações da mais alta qualidade em uma tiragem limitadíssima neste formato.
Confira abaixo
MANUFATURA
por Edu Zambetti
Algo entre os traços de M.C Escher e Robert Crumb, entre a distorcida visão do mundo e os desejos mais íntimos do indivíduo, ainda entre o indivíduo em conformidade com o todo e vice versa, tudo isto faz parte das reflexões apontadas de forma peculiarmente sutil através das ilustrações de Flávio Grão neste nº1 de seu Livreto/Zine intitulado “Manufatura”.
Com uma pequena tiragem inicial, cada exemplar vem numerado manualmente e traz duas sequências trabalhadas em nanquim sobre papel (posteriormente reproduzidas em vergê) que apontam para uma disposição do artista em manifestar certo afastamento das regras e estereótipos que conduzem nosso mundo atual.
Na sequência intitulada “Escadas”, Grão parece refletir sobre a existência de um possível equilíbrio entre todas as coisas a partir da superação por parte de cada pessoa de suas próprias limitações ao mesmo tempo em que isto altera seu modo de entender e atuar no universo concreto.
De “Ego Harakiri”, última sequência de ilustrações do ”Manufatura”, salta a preocupação sobre como todas as buscas, manias, medos e anseios podem consumir o indivíduo, refletindo uma imagem muitas vezes distorcida dele perante o coletivo enquanto, simultaneamente, distorce sua própria visão sobre a realidade deste mesmo coletivo. Ainda neste universo pictórico, o mundo altera o indivíduo e este altera o mundo num movimento muito menos radical e caótico do que sutil e harmonioso.
No final deste zine de papel com traços de filosofia em forma de arte, conspiratória ou não, underground ou não, fica uma questão entre tantas:
“A história do indivíduo vem de sua real superação em relação a si e ao todo?”