quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

A ÚLTIMA PROMESSA


(por Edu Zambetti)

Não era viciado em jogo, mas Epaminondas Duran nutria grande admiração pela iconografia das cartas e pela surreal lógica típica das mesas de jogatina. Na verdade era admirador também de desafios absurdos, apostas sem fundamento e fezinhas no jogo do bicho.
Pensando melhor, Epaminondas era sim, um viciado em jogo. Mas disfarçava bem, pelo menos tentava. Dizia ele: Há coisas em nós que são mais fortes do que nós mesmos.

Fazia alguns meses, precisamente um ano, havia perdido para o velho Diego Figura ( Dom Figura ou Figurão como também era conhecido) toda a grana que ganhara como músico nos anos setenta e quase tudo o que herdara de seu pai, com exceção de um surrado, porém excelente violão, e da quase misteriosa mala de partituras raras. Foi deprimente, mas isto feriu mais seu íntimo do que o seu bolso, afinal, nunca teve uma vida cheia de ostentações materiais.

Dizem que até hoje ele é dono de um grande carisma, de um bom humor inabalável e da rara fobia que consiste em nunca cumprir o prometido. Aliás, todos os seus amigos, verdadeiros ou falsos, sempre caçoaram dele por esta característica, mais do que isto, sempre comentaram pelas suas costas, sempre o tiveram como um grande perdedor, um homem sem metas, gente boa, mas perdedor.

Faltava um dia para terminar o ano e Epaminondas procurou Diego Figura com uma aposta absurdamente ousada, se fosse para frente, ele poderia recuperar a grana perdida e curaria aquele buraco negro em seu íntimo.

Chegou decidido, despejando palavras para espanto de seu interlocutor:


- Dom Figura. Tenho uma aposta irrecusável para propor, mas será do meu jeito ou não faremos.


O Figurão deu um gole rápido no seu gim tonica e, com o olhar de uma cobra velha que aponta para sua presa fácil, respondeu utilizando só um lado dos lábios:



- Mas olha só quem veio me procurar! Não aprendeu ainda? Seu negócio é rock de bicho grilo, já não basta ter perdido toda sua grana no ano passado e você vem me propor outra aposta. Gosta de perder uma vez por ano? Bom...Como sou generoso, diga logo o que quer apostar...Vamos ver o que sua mente planejou desta vez. Vai tentar pular de pára-quedas ordenhando uma cabra novamente? Nesta eu lucrei bastante...e como lucrei.

- Não, eu estava completamente chapado quando propus esta doideira...Você me conhece né Figura? Todos dizem que, embora sempre honre minhas dívidas de jogo, nunca cumpro minhas promessas. Na verdade sinto pavor ao pensar em cumprir o prometido e é justamente aí que está minha aposta.

- Conheço você muito bem Epaminondas, desembucha logo!

- Farei quatro promessas neste final de ano. Escreverei as quatro, colocarei em envelopes separados e revelarei duas apenas. As outras duas nós guardaremos dentro daquele cofre em formato de pirâmide e será aberto um dia antes do final do ano que vem. Eu garanto que consigo cumprir pelo menos uma das quatro promessas e, se fizer isto, o senhor me devolve aqueles “um milhão e setecentos mil” que perdi no ano passado. Se eu não conseguir cumprir nenhuma delas, garanto lhe entregar os bens mais valiosos de minha vida. Eu, Epaminondas Duran, perderei o meu velho violão e a mala de partituras que o senhor sabe muito bem o valor.

Diego Figura sentiu o estômago ferver. Desde sempre cobiçou aquela mala de partituras como se fosse o elixir da longa vida. Fora isto, o tal violão, dizia a lenda local, teria passado pelas mãos dos maiores violinistas do mundo antes de chegar até o pai de Epaminondas. Antes de responder, deveria esconder sua emoção e manter o seu clássico olhar peçonhento.

- Olha aqui seu roqueiro aposentado. Eu sei que você tem esta tal fobia e sei que é um perdedor nato, mas cumprir uma promessinha de merda não vale esta grana toda. Terá que cumprir pelo menos duas das promessas, e não me venha com promessinhas do tipo “vou me matricular na academia” ou “vou estudar uma língua estrangeira”. Mesmo assim, só vou topar por causa do grande gênio da música que seu pai foi. Por você, talvez eu nunca fizesse esta generosidade.

- Dom Figura. Garanto que consigo cumprir duas das promessas escritas. O senhor está aceitando a aposta agora?

- Epaminondas. Garanto que você não consegue cumprir promessa alguma, nem que tivesse cem anos para tentar. Aceito a aposta. Já me sinto dedilhando aquele violão.

Na capa dos envelopes lia-se: Promessa Um. Promessa Dois. Promessa Três. Promessa Quatro.

Todas foram escritas ali mesmo, com letras trêmulas e caneta barata.
Duas foram reveladas e provocaram risos em Dom Figura.
Na primeira, Epaminondas cortaria por completo a barba cultivada desde junho de 1969, sua marca registrada na época de sucesso. Na segunda, tocaria, sem erro algum, uma música que tanto seu pai como Diego Figura admiravam muito. Sarabanda Variada de Haendel seria executada, dedilhada, servida com alma de maestro e sem falhas.

Conforme o combinado, as outras duas foram diretamente para o cofre piramidal e os envelopes ficariam intocáveis até o dia D. Só Epaminondas sabia seu conteúdo.


No decorrer do ano os calendários passaram de forma diferente para cada um deles. Lento demais para a ganância de Dom Figura e rápido demais para a fobia de Epaminondas Duran. De qualquer forma, independente das fases da Lua, crises econômicas, capítulos de novelas ou conflitos internacionais, o tal dia chegou. O olhar de perdedor encontraria o olhar venenoso, a aposta seria julgada e, naquela altura do campeonato, todos os viciados e admiradores da jogatina local estavam lá naquela sala escura da casa clandestina de apostas para presenciarem a derrota. A vitória seria notada também, mas só a derrota viraria história definitiva.

Epaminondas apareceu de banho tomado, expressão leve e barba feita, mas não totalmente.O Bigode descia pelas laterais do rosto dando um ar de cantor country ao roqueiro aposentado.
Sua fobia não permitiu, impediu assustadoramente que o bigode fosse raspado. Alguns chegaram a tremer de raiva ao ver tamanha fraqueza.


Sentou em um banquinho, sacou uma partitura amarrotada do bolso, pegou um violão fabricado em Taiwan e tocou os dois primeiros compassos da música combinada. Executou com toda a alma que a arte merece, mas antes do terceiro compasso, atirou longe o violão e cuspiu na parede enquanto todos gargalhavam, todos, inclusive ele próprio, que ria mais de sua fobia do que de si mesmo.


O Figurão teve que falar...


- Amigos. Como vocês podem ver, este perdedor não conseguiu nem fazer a barba direito, está parecendo o Leôncio dos desenhos animados. Epaminondas, porque você insiste em fazer as coisas pela metade? E a música? Eu lhe pagaria a aposta com prazer se você executasse Sarabanda Variada de Haendel na integra, e olha que você começou bem...As promessas não foram cumpridas!!!

- Dom Figura, ainda faltam aquelas promessas do cofre...Posso abrir?

Promessa número três: Prometo que não cumprirei a promessa número um, nem a promessa número dois, ou seja, as duas promessas reveladas.

Promessa número quatro: Prometo que ganharei, com louvor, um milhão e setecentos mil de Dom Figura.

Tanto Diego Figura quanto os falsos e verdadeiros amigos de Epaminondas Duran nunca haviam presenciado resultado tão peculiar. E, para um homem de olhar peçonhento como o do Figurão, até que ele aceitou bem a derrota. Pagou centavo por centavo, o que não lhe fez tanta falta, afinal, morreria três dias depois do ocorrido.

É claro que muitos tentaram anular a aposta e argumentar com esta ou aquela desculpa, mas o jogo é assim; não há espaço para meias verdades ou, no caso, meios resultados. Epaminondas cumpriu na integra duas das promessas e levou a grana conforme o combinado.


Em casa, afinou precisamente o surrado e cobiçado violão, respirou fundo, bebeu um gole de vinho tinto de mesa e executou Sarabanda Variada de Haendel de acordo com uma antiga partitura e quase com a inspiração mágica de seu pai.
Em seguida, tirou calmamente do bolso mais um envelope com letras trêmulas:

Promessa número cinco: Prometo driblar, enganar, ludibriar aquele idiota do Diego Figura.


Três dias depois, num ato de nobreza, pagou todas as despesas do funeral do peçonhento jogador.


(Epaminondas Duran fez muito sucesso nos anos 70 com seu grupo " Epoxydurê e as Hippies de Shangri-lá")

2 comentários:

  1. Poxi durê RULES!
    Gostei do estilo Epaminondas, bela história!

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