Mostrando postagens com marcador robert crumb. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador robert crumb. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

O BLUES DE CRUMB



Não é sempre que ouço blues. Quando isso acontece, algumas imagens aparecem automaticamente na minha cabeça. Uma é de uma estrada de terra no meio do nada, ao sol do meio-dia e um negro de calça jeans, camisa xadrez, suspensórios e chapéu, sentado em um baquinho, tocando um violão e cantando para o horizonte. Às vezes também me aparece na imaginação um quarto alugado, com paredes de madeira com um inquilino tocando sozinho, enquanto o sono não vem.

O que é claro em ambos os casos, é a solidão. Blues, para mim, é estar só, pensando na vida, no seu mundo. E lendo o livro Blues de Robert Crumb, pude constatar que não estou tão errado assim.

O famoso criador de Fritz, The Cat é um ardoroso, e até radical, fã de blues, chegando ao ponto de ter sua própria banda, onde toca banjo. Tornou-se colecionador e possui uma das coleções mais completas do estilo. E parte dela foi adquirida de uma forma inimaginável para os dias atuais: o cara ia de porta em porta em bairros negros em busca de raridades que adquiria quase que de graça. Foi numa dessas que descobriu o trabalho de Charley Patton, disco do qual lucrou mais de 1000% do valor pago e mais alguns vinis.



E é justamente com a história de Patton que Crumb abre o seu livro. E a história de um bluesman acaba quase sempre sendo a de todos os bluesmen: o cara tem família, sua mulher toma conta de todos os filhos, arruma a casa e o quintal e ainda tem que trabalhar fora para colocar comida dentro de casa.

Enquanto isso, nosso herói continua com o seu violão, em seu universo particular. Não demora muito para ser tocado fora de casa ou ele mesmo seguir o seu caminho, depois de muita discussão e até uns bofetes de ambos os lados. Alguma semelhança com os sambistas da Lapa carioca da década de 1950?

Penso que, assim como o samba carioca, o blues não seria como é sem essa dinâmica particular do bluesman, ou seja, um cara desprendido de compromissos sociais e familiares, livre para tocar e curtir a boemia e compondo joias raras.

Tendo esse conhecimento básico do blues, é possível entender porque o rock é visto até hoje como rebelde e o motivo pelo qual os mais conservadores torcem o bico para ele. Afinal, na época que surgiu o ritmo pai do rock, quem não era cristão, era marginal e, se fosse músico então, a imagem piorava consideravelmente. E ainda tinha aquela lenda do “pacto com o diabo” que os grandes bluesmen faziam para tocar bem, que alimentava o repúdio a esses artistas.

Musicalmente, Crumb é um conservador. Para ele, o som puro mesmo é o que descreve nesse livro, fazendo questão de deixar bem claro em “Onde foi parar toda aquela magnífica música de nossos avós?” e em “Por que será que ver pessoas agitando e requebrando é tão repugnante para mim??” Imagino como ele deva estar mais revoltado ainda com as maravilhas proporcionadas pela indústria fonográfica atual...

Esse livro serve perfeitamente como uma introdução básica ao blues, pois ele sugere que se pesquise mais sobre o assunto. Ler essa publicação com uma boa trilha sonora (blues, of course!) eleva a viagem, ainda mais pelo fato de que cada nome citado por Crumb desperta uma vontade medonha de buscar o disco na internet, o que é algo muito saudável, eu garanto.

Importante ressaltar que esse livro é muito mais que uma introdução ao mundo do blues, é, principalmente, uma declaração de amor a um dos estilos musicais mais puros e responsável por muita coisa que ouvimos hoje.
Boa ou ruim.

terça-feira, 13 de julho de 2010

HARVEY PEKAR RIP



Morreu ontem (dia 12/07/2010) o quadrinista Harvey Peaker, aos 70, em Cleveland.
Autor dos quadrinhos American Splendor, foi um dos grandes nomes dos quadrinhos underground da América do Norte.

Reclamão, ranzinza, ácido e irônico, Harvey Pekar vivia uma vida medíocre (como arquivista de um hospital) até que viu sua sorte começar a mudar quando procurava discos antigos em uma “venda de garagem” e conheceu o desenhista Robert Crumb. Através deste encontro surgiu a revista American Splendor, onde foram retratadas por cerca de trinta anos as aventuras banais de Pekar, ilustradas por diversos desenhistas.

Em 1994, Harvey escreveu uma premiada graphic novel intitulada Our cancer year, que contou sua luta vitoriosa contra um câncer linfático.

Apesar de medíocre, a vida de Pekar foi extremamente divertida. Seus quadrinhos viraram peça de teatro e mais recentemente filme: lançado em 2003, American Splendor (Antiherói Americano) é um dos melhores filmes sobre quadrinhos já feitos. Brilhantemente interpretado por Paul Giamatti, a história de Pekar é contada de modo divertido, da infância até seu relativo sucesso. Destaque para os momentos de meta-linguagem onde o próprio autor aparece para dar suas tradicionais resmungadas e para as notórias e constrangedoras aparições nos programas do David Letterman.



No Brasil, algumas histórias de Pekar foram publicadas na extinta revista Piratas do Tietê e mais recentemente foi lançada pela editora Conrad uma compilação das histórias feitas em parceria com Crumb, intitulada Bob & Harv.



Zinismo recomenda Harvey Pekar e lamenta a morte do artista que fazia algo brilhante a partir da mais vulgar matéria prima, o cotidiano do ser humano comum.
RIP Harvey!



quarta-feira, 16 de setembro de 2009

CRUMB, A BÍBLIA E A ENTREVISTA



Saiu na Folha de São Paulo uma pequena entrevista com Crumb que vale a pena ser lida.

E boas notícias, a sua versão ilustrada do Gênesis já está em pré venda nos sites gringos de livros e deve sair em breve pela Conrad.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

CRUMB E A BÍBLIA



O genial desenhista Robert Crumb encarou uma pedreira em um dos seus últimos trabalhos quando se propôs a ilustrar o Gênesis da Bíblia.

É claro que isso gerou polêmica, mas por incrível que pareça sua intenção não é a de subverter o livro religioso, pelo contrário: "se a minha interpretação visual e literal do genêsis ofender ou ultrajar alguns leitores, o que me parece inevitável, considerando que o texto é reverenciado por muitos, tudo que posso dizer em minha defesa é que agi como se fosse um trabalho de pura ilustração, sem a intenção de ridicularizar ou fazer piadas visuais. Dito isto, sei que não dá para agradar a todos".

No subconsciente coletivo prevalece a imagem do Crumb dos anos setenta como ilustrador doidão que inventou Mr Natural e Fritz the Cat, isso se deve sem dúvida ao material restrito ao qual nós brasileiros tivemos acesso durante muito tempo. Esqueçam isso! Crumb não é hippie! À medida que ele envelhece em uma cidadezinha do sul da França seus quadrinhos tornam-se mais sutis, mas sem deixar de ser ácidos ou políticos.

Além dos álbuns lançados em sua maioria pela editora Conrad (America, Blues, Minha vida) a Revista Piauí tem trazido a produção contemporânea do desenhista e recentemente publicou algumas histórias feitas à quatro mãos com sua esposa (Aline Crumb), também quadrinista. Nesta edição (número 36) a revista Piauí traz a primeira edição do Gênesis, recomendadíssimo!