terça-feira, 25 de novembro de 2008

JÚLIO E O PARADOXO DO PASSADO



Por ter encontrado e se casado com Marília, Júlio se considerava um cara de sorte.
Ele: um simples segurança, bruto e rústico. Ela: professora de crianças, mulher bonita e inteligente. Mas a frase feita existe para ser usada: os opostos se atraem.

Era segunda feira, Júlio olhava Marília servindo a comida e lembrava-se da dura batalha para conquistá-la. Mais de um ano de gracejos, bombons e flores. Na época ela acabara de chegar da capital, lugar do qual não gostava nem de ouvir o nome:
-Detesto aquele lugar, detesto.
-Por que?
-Não interessa. Júlio, eu tenho um passado e se quiser ficar comigo tem que aceitar ele morto e enterrado.

Então que fosse, Júlio se condicionou a não se importar. O passado era tempo gasto e inútil. O presente era trabalho e o futuro deveria ser construído agora. O que importava realmente era no que as pessoas tinham se tornado e o passado – ferramenta que participou dessa construção- deveria ficar guardada em gavetas invioláveis. Aliás ele também tinha seu passado de pequenos delitos quando menino pobre e depois teve o tempo como segurança de boate.

Como sabemos, Balneário Fantasma era um lugar onde a consciência de classe se aprendia desde a educação infantil. E isso provocava situações no mínimo, dignas de análise. Uma dessas situações ocorreu quando as indústrias eletroeletrônicas quiseram modernizar os formatos midiáticos. A substituição de LPs por CDs foi difícil. E a de fitas VHS por DVDs nunca ocorreu a contento. Uma campanha que começou nos jornais e terminou na câmara dos vereadores baniu os DVDs como “estratégia capitalista de transformação mercadológica da arte em produto”. Assim, Balneário Fantasma até hoje utiliza os lendários videocassetes. Todos os dias caminhões chegam com suas caçambas abarrotadas das obsoletas fitas de VHS provindas de várias cidades do país. Essas fitas são disputadas avidamente pelos vendedores que as revendem em pequenas bancas no centro. Há também o fenômeno e o mercado de DVDs novos que são convertidos em VHS. Coisas de Balneário Fantasma.

A única mácula na pretensa honestidade de Júlio tinha a ver com isso.

Desde criança e durante a adolescência Júlio consumia regularmente pornografia. Era seu vício. Se antes ele escondia revistas mofadas e coladas embaixo do colchão, hoje ele colecionava fitas VHS pornográficas.

Comprava essas fitas ao menos uma vez por semana e as trancava no guarda-roupa, junto com suas ferramentas de trabalho “tem que manter trancado Marília, senão o Júnior pode pegar minhas armas e já viu”.
Para assistir as fitas Júlio desenvolveu uma técnica astuta. Como ainda não havia “tirado” o ensino médio prestava provas do governo todo final do ano para eliminar matérias. Deixava então exposta uma pequena coleção de fitas de “tele-curso” como pretexto para poder se trancar no quarto e exercer seu pequeno vício sem que fosse incomodado: “Estou estudando, preciso de concentração”.

Quem julga Júlio por este pequeno vício tem uma perspectiva simplória da história. Ele tinha consciência que essas fitas eram em parte responsáveis pela sua fidelidade à Marília e pela longevidade de seu casamento que iria completar 12 anos no próximo dia 20. Júlio utilizava um mecanismo de projeção mental e transferia o que assistia nas fitas para seus momentos de maior intimidade e isso mantinha acesa a “chama do amor”.

É claro que Marília desconfiava de seus momentos trancados no quarto, mas afinal, sabia que Júlio era um homem bom e principalmente: nunca questionara sobre seu passado.

Na terça feira ao voltar do trabalho (como de costume) Júlio parou em frente à banquinha de VHS do seu fornecedor de confiança:
-E aí David! Como estamos hoje? Alguma novidade?
-Tem sim patrão, tem uma que você vai gostar. Converti para fitinha uma raridade do cinema nacional... deixa ver...
E assim Júlio levou consigo a fita “Loucuras tropicais do Brasil volume 7”.

Chegou em casa, beijou a mulher, olhou o menino fazendo a lição e foi direto para o quarto.
-Marília, vou estudar! Peguei uma fita de matemática, você sabe que eu tenho uma dificuldade lascada com os números!
-Tá Júlio, ainda vou colocar o arroz no fogo...

Júlio adentrou o quarto e eufórico fechou a porta.
Tirou a fita da mochila e colocou no vídeo-cassete.

A fita começou com uma trama óbvia. Uma festa universitária que descambava para a orgia.
A princípio não reparou, não quis reparar. Mas algo lhe incomodava naquela fita, um olhar de uma personagem ao fundo das cenas, com um drinque na mão.
O incômodo passou a fazer sentido. Aquele olhar... Era Marília, sem dúvida! Mais jovem e loira, mas era Marília. Ficou tenso. Pensou em tirar a fita e pisar em cima. Mas será... Talvez ela fosse somente uma coadjuvante do filme. Não era.
E a festa universitária seguiu seu rumo com a participação ativa de Marília em poses, posses e tudo que seu cachê permitira. E era tudo o que o inconsciente de Júlio mais temia ver.

A fita acabou. Júlio ficou olhando pela janela do apartamento. Era um por do sol bonito. “Então era esse era o tal segredo de Marília...”
Ejetou a fita do vídeo-cassete. Abriu o armário e colocou ao lado do revólver. Olhou para cada um dos objetos poderosos como se estivessem cada um em prato de uma balança.
Não sabia qual dos dois escolher.

-Vem Júlio, a janta está servida, vai esfriar! Marília batia na porta.
Aquela janta foi dotada de um silêncio constrangedor rompido regularmente pelos incômodos barulhos dos talheres na porcelana dos pratos.
-Tudo bem Júlio?
-Problemas no trabalho - justificou cabisbaixo.

O silêncio acompanhou-os até o quarto. Mais tarde na cama uma cena da novela fez com que Júlio e Marília cruzassem seus olhares. Um beijo e o apetite sexual (temporariamente contido) de Júlio voltava à tona. O ato em si foi memorável para aquele casamento já desgastado. As cenas da festa universitária se repetiam com uma tortura na mente de Júlio que em contrapartida possuía sua esposa com um sentimento de não pertencimento que lhe era extremamente prazeroso.

Nesse dia Júlio aprendeu forçosamente a rimar (como na mais vulgar das músicas bregas) as palavras antíteses dor e amor.
Na quarta feira Júlio se desfez de toda sua coleção de fitas VHS pornôs e creiam: nunca mais precisou delas.

7 comentários:

  1. Contos do Grão...isto vai dar Livro!!!

    ResponderExcluir
  2. só ser for Sara "mago".
    aliás eu e o Viegas acabamos de voltar do lançamento do novo livro dele com a presença do mestre.
    Foda!

    ResponderExcluir
  3. Grão,

    só uma coisa pra te dizer:

    "Estou com minha gente".

    ResponderExcluir
  4. Grão,
    lembra de um texto antigo num zine véio do abc???? Esse texto terminava com a sentença: " O sonho acabou!" Que se referia ao sonho em amplo sentido. Tanto o sonho da padaria quanto o sonho que morfeu projeta?

    Eu gosto dessa coisa de mini-série que seus textos dizem, Grão. Muito foda, cara.

    Graças e louvores,
    Eduardo/Qaabo/Boqaa

    ResponderExcluir

Andarilhos do Underground: ZINAI-VOS!!!